Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

FÁBULA  

Porque é que um sapo deitado de costas é mais repelente que o cadáver de uma rainha a boiar num charco? Como nos desafiam as coisas, nos roubam os olhos, nos apontam indícios macabros ou, apenas, irrelevantes enquanto outra cena é representada atrás da nossa imagem? A rainha ressuscita. Está agora agradecendo as coisas que tornámos indiscutíveis, tarântulas enormes que a teia já não suporta e mantêm as crianças no seu fosso. A quem mais explicar esta concepção das coisas? Ao padre, ao polícia, à meretriz que guardam o segredo dos lares? Ou deveria, do alto do púlpito, tentar uma grande reorganização da palavra, redistribuir os papéis, fazer dos cidadãos magos capazes de empenhamento na própria reinvenção? Capazes de afugentar as aves negras que lhes mordem as cabeças: a tradição é uma estética, uma forma de emoldurar a morte. O poema constrói-se do nada para que nos encantem os seus heróis, as lutas dos gladiadores e dos que não defendem nada senão uma vaidade limite temperada pelo perfume do aço, alimentada do aço que hoje manobramos como se rescrevêssemos a mitologia. Como se desejo e morte, numa mimese caricatural da palavra, sorteassem quem será salvo, mas não há aquém nem além da palavra – a musa é o próprio espelho e se o quebrarem não saberemos como dizer as coisas. Imaginamos um grande cataclismo transformar o arcaboiço do mundo em teia de aranha que os heróis percorrem velozmente, as palavras perderem o género, totalmente devotadas à significação, mas haveria, ainda, lugar para um beijo na cópula da harmonia? A estrela confirma o horóscopo final. Quando os cidadãos perceberem que as coisas mudaram, recomeçará o carnaval nas ruas em redor do sapo que amou a rainha morta – glória ao poeta e ao técnico de efeitos especiais que ressuscitou a rainha. Este texto prova que as pessoas se entretêm com qualquer coisa.