Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

FUGA E PRENÚNCIO DE UM INSTANTE    

Ao dizer o leito da espuma numa nascente virgem (cuja doçura os pés estranham), não percebemos onde a ondulação (ao deslocar objetos dentro de casa) atinge a volúpia de uma fotografia. Percebe-se a rugosidade dos instrumentos poéticos, a sua incerta localização nos muros do mar, rebatendo o abecedário das cores para os reflexos do branco no inconsciente de um deus. Nós dizemo-lo glorioso porque assim o pensamos automaticamente com a sucata dos adjetivos – sinos, gonzos, trompas como sopram uma persuasão que é preciso amar – e fugir do bucólico vale, as suas flores e riachos. Reconhece-se, na espuma dos enigmas, as traves de uma arquitetura primordial (a sua durabilidade sustém a persistência das coisas), e, conquanto se desfazem as formas nessa matéria suculenta, no seu opaco ama-se o melhor do hino, os desdenhados enigmas da vida. A lenta coalescência das coisas ignoradas musica a arte dos versos, ritmam-se, pausam sempre que o poema sobre nós desaba, o estrondo da vaga inunda-nos de um pávido suor. O infinitamente pequeno solta-se em nós, o oceano ruge, quer-nos de uma forma mortífera, nós os recipientes da espuma que equilibra as partes mortas, as roldanas da filmografia. Depois, finalmente abrimos os olhos às imagens – luas múltiplas, tetracéfalas, pirosas. Luas cambaleando pelo firmamento à procura da explicação, bêbedas mais que nós, luas de voluptuosas promessas, a própria forma da promessa, a espuma do seu oco enrijece-nos. Luas dos inextricáveis odores do inconsciente, arautos de deslumbrantes significações, bisturis fatiando-nos por dias de anónimas pertenças. Estamos à frente da imaginação e sorrimos e respiramos um vento de vidro no cimo de uma montanha de vidro donde segregamos alguma forma de olhar totalmente neutra. Apetece-nos rezar sem saber o que a seguir venha, ignorando o rosto de quem nos persegue, de quem para nós cozinha o mundo. Tudo vem da nascente virgem onde chapinhamos na espuma de um sossego avassalador, demónios de vidro, olhamos a própria transparência.