Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

hábito, atitude, caricatura

HÁBITO, ATITUDE, CARICATURA   Em particular nas férias, deixamos a nossa autoindulgência à solta e é quando percebemos que já não sabemos o que é consumir. Na verdade, o paradoxo da desnecessidade apropriou-se das nossas mentes de caçadores-coletores. As nossas necessidades crescem a uma velocidade nunca atingida e já não é possível reduzi-las a variantes de uma mesma tendência geral à sobrevivência. Podemos dizer que a sobrevivência se matizou, que pode ser servida por padrões de consumo diversos e que no limite do nada consumir pode encontrar seja um júbilo transcendente, seja a própria exaustão da sobrevivência que é uma via absurda para o aniquilamento. São precisas teorias do consumo que o realienem: 1) fomentando a troca de papéis entre abastados grandes consumidores e os que economizam na pasta de dentes, 2) encurtando o intervalo entre a formulação de um desejo e a sua saciação para que a libido não se perca com tempos mortos, 3) inundando o mercado de bens verdadeiramente supérfluos (um indagador universal a partir da mobilidade das nuvens, um arquivo panoramográfico, um cocegador com doseamento serotoninérgico, um programador de pequenos almoços) que tornem obsoleto pensar no que faz falta, 4) pastilhas que compensem o que falta, assim desfazendo o apetite (da fome e da sede, do sexo e do sono, de saber e de poesia, de amar os outros como a nós mesmos), 5) reembelezar a publicidade de modo a persuadir os que ainda lhe resistiam envoltos em ideologias eco-sistémicas, 6) aditivos ilusionadores a juntar a qualquer objeto para dilatar o seu tempo diário de utilização, 7) multiplicação dos parques naturais e de outros reservatórios de natureza a serem visitados em cápsulas rigorosamente impermeáveis, 8) entorpecentes cinematográficos para colorir o sono tanto para as pessoas que têm pesadelos como para as outras que não os tenham. As teorias do consumo devem, sobretudo, defender a desnecessidade de qualquer teoria pois o consumo deve ser o grande e inquestionável princípio de relação com a vida, assim anteceder e fundamentar todas as teorias. Em particular em férias, quando o corpo se lentifica é a ocasião para recolocarmos a metafísica do sentido: 1) o ser não tem fome, 2) a fome é o nada da posse, 3) a posse organiza a realidade, 4) a realidade possuída é necessária e contingente, 5) a questão do sentido não se coloca em férias, 6) em férias não se é – está-se, numa realidade episódica, contingentemente possuída e, como caçadores-coletores, resolvendo a fome sem trabalho.