Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

história da opinião

Como escapar do peso da opinião é equivalente a como provocar uma opinião. Ambas significam estar à frente da opinião o que implica escrever como um recém-nascido com o seu intelecto ainda dominado por instintos de réptil foragido da Arca em direção a uma Babel que nunca será suficientemente alta. As opiniões iniciais eram sobre a própria Babel, sobre os tijolos que eram palavras pouco resistentes, sobre a arquitetura em espiral como se o seu desenrolar fosse, se não infinito, ao menos suficientemente criativo para permitir contar todas as histórias. O recém-nascido não tem opiniões nem é susceptível como um poeta laureado. Tem uma norma poderosa que é como ter uma infeção que dá febre e é preciso curar. A febre faz delirar e quanto mais deliramos mais nos afastamos das opiniões – são palavras autónomas as do delírio, destrutivas como o primeiro tijolo que fraquejou nos alicerces de Babel. Mas como escapar do poder divino? Como escapar sem pretender rivalizar com ele, simplesmente falar de uma humanidade descentrada de si e dele – nunca perguntar quem é ele nem quem somos nós. A nossa essência é não respeitar isso que fôssemos, não respeitar nenhuma natureza que nos atribuamos, nenhum mito que tenhamos declarado «fundacional» como qualquer conto do vigário. Tudo o que parece excessivamente verdadeiro causa-nos a mesma vertigem que sentimos no topo de Babel quando todos nos parecíamos entender e era porque, antes, nunca nos ouvíramos a nós próprios no desdizer dos outros – nunca ouvíramos uma opinião que é um pensar fora da nossa certeza.