Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

hoje, ainda precisamos das metáforas

Muitos leitores de poesia não tiram todas as consequências de uma metáfora, antes plantam-na numa horta infértil e, quando o seu pólen se solta, dizem «Gosto», meio entorpecidos. Significa que, nalguma zona do cérebro, uma fada local se saracoteia e se despe habilmente. Nada mais lhe foi prometido, mas o leitor da metáfora pode ser levado a acreditar numa transubstanciação em que uma coisa incompreendida se materializa numa ingénua flor e, assim, esta adquire um significado pesado: pátria, amor, virtude, vida eterna, tudo fica ao seu alcance. Hoje, utilizamos tecnologias de significação ainda mais precárias, mas uma chapada, um insulto, o colo de uma super-ama ou os contos de adormecer mantêm um valor negativo que a nossa antiga natureza logo deteta. Contudo, quando uma mulher empresta o seu útero ao seu pai e à sua mãe para que lá se desenvolva um embrião que será um seu irmão, perguntamos se a própria biologia humana não se tornou uma metáfora cujo valor não sabemos julgar. No entanto essa filha, que nada pediu em troca, triunfou sobre o maior dos vícios: a autoridade do reprodutor. É outro domínio em que são irrelevantes as questões de género; para a mulher o útero é o instrumento da humanidade incluído em si como o circo em Roma. As transferências de significado ora atiram o poema para uma perigosa altitude literária onde o olhar se fixa acima, cada vez mais acima, acima sem limite, ora olha em torno e mergulha nos ares das paisagens e, agradado, nas acrobacias que desenham nos céus o enredado de imagens de todos os poemas. Mas não tem apenas estes dois níveis o poema nem as metáforas os circunscrevem. Como no circo, as imagens da crueldade de uma domesticação extrema, as imagens de uma sobre-adaptação animal que se deixou vencer, as imagens de efeitos civilizacionais torpes, tudo nos faz rir no circo e aplaudimos. No poema, um riso silencioso parece recolorir tudo o já pensámos e aplaudimos simplesmente entregando-nos à significação do conjunto.