Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

hoje temos a certeza de como as coisas irão acontecer

Hoje, encontramos por toda a parte o «último homem», nas ruas cosmopolitas comprando a última moda, no cabeleireiro, a laca fixando as formas naturais do penteado, à saída do WC onde dispôs de uma maquinaria eletrónica para lavar e secar o rabo em condições de um conforto quase erótico, no cinema onde, no lugar do sonho, recebe formulações sobre o pensamento e as escalas do mérito adequadas à época. Ninguém se sente «último homem»; ninguém acha acabada a sua perfeição, ninguém julga ter lido a Odisseia com a devida profundidade nem mesmo James Joyce; ninguém defende a sua contemporaneidade ser igual à dos seus antípodas isto porque hoje há tantos livros, tantos filmes, tantos pregadores com tantas definições de virtude e de utopia que, embora contentes com a vida por sobrevivermos ao cancro da próstata, lamentamos algo de irrecuperável que a história contém apesar das suas magníficas cirurgias plásticas. Quando encontramos o «último homem» e ficamos contentes por tanto diferirmos, ainda não o conhecemos bem, ainda não o ouvimos quando desespera, quando o vazio o assola, a abundância o fere, a ordem o constrange, e, sobretudo, não encontra já no amor nenhuma razão suficientemente forte. O «último homem» é um palhaço que se afoga e o nadador-salvador está concentrado a tentar compreender o Zaratustra. O seu colega joga num computador de pulso com ecrã holográfico O Triunfo de Deus cujo objetivo (do jogo) é determinar quais os melhores objetivos para um deus. Isto obriga cada jogador a repensar tudo, a repensar se os grandes conceitos e as grandes teorias que abandonou poderão curar uma ânsia que nunca se define e mobiliza cada «último homem» para um estado ulterior que ainda não denominou, mas percebe não ser o último. Entretanto o «último homem» morre como um palhaço simplório que acreditava na sua insolvência. Mas o mar é verdadeiramente homogeneizador e dissolve os cadáveres dos «últimos homens», mesmo poluído, tal como a atmosfera, tal como estão esgotados muitos recursos agrícolas, embora outros sobrem o que gera uma instabilidade económica e novas crises imprevisíveis. A história acelera-se, as diferenças entre culturas acentuam-se, as pessoas pertencem a diversas culturas, repartem-se por diversos antagonismos e assim se digladiam. Assim, novas sínteses surdem, e logo se desmoronam, e, se há uma direção e ela é bela, é porque a humanidade assim a quer.