Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

HOMENAGEM A HENRY BERGSON  

O humor é uma forma de retórica como a presença de um porta-aviões nuclear: muitos argumentos cuja validade não foi discutida são desprezados face à potência do riso. Este bloqueia a necessidade de compreender uma situação, troca-a por um momento de puro gozo verbal como se todos os aviões levantassem voo numa vertical simultânea e, já perto da lua, fizessem explodir o arsenal militar de todos os exércitos do mundo. Esta pacificação súbita do planeta deixa-nos nervosos porque nos obriga a confiar uns nos outros, como se fôssemos mais ou menos iguais e tivéssemos direitos semelhantes. O riso é uma espécie de querer e não querer que nos avermelha as mucosas todas, algumas inflamam-se, quase explodem em orgasmos fogosos, outras secam e retraem-se como estrelas-anãs envergonhadas na noite de núpcias. O riso alivia a pressão que enche o cérebro de uma forma semelhante a quando esvaziamos a bexiga ou o intestino grosso. Não chegamos a sorrir porque não temos interlocutor: são ações não socializadas, mas produzimos um quase imperceptível esgar de contentamento por um corpo, que é capaz de heroísmos, ser, também, competente nestas tarefas prosaicas. Há circunstâncias em que rimos de tudo, vemos em qualquer coisa espelhar-se a nossa alma mecânica com os seus hábitos cristalizados, e rimos por nos repetirmos, por ternamente nos reconhecermos como se tivéssemos passado muito tempo sem nos olharmos num espelho. Rir deixa-nos estupefactos numa qualquer paisagem de montanha sentindo a mesma efémera magnificência, mas rimos, também, deitados na praia ao sol procurando fazer alguma coisa para sermos admirados por alguém que passe nas mesmas circunstâncias. Sorrimos por sermos previsíveis e imprevisíveis como as ondas que rebentam perto. Rimos por indulgência e rimos por negligência, rimos porque o outro nos quer fazer rir e rimos para fazer o outro rir, como se neutralizássemos o porta-aviões com pastilha-elástica em defesa do status quo. Rimos para elogiar e tornar sincero o elogio e rimos para troçar sem destruir completamente. Rimos com humor e rimos sem humor. Por vezes, perdemos a vontade de rir: perdemos o humor – ou não.