Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

homenagem a Thoreau

Construímos, por aproximação, os pressupostos da nossa bondade. Ninguém se iludiu sobre as nossas verdadeiras intenções, apenas se tornou insustentável pensar em raças privilegiadas e em predestinações preferenciais que dão a uns poder e riqueza e a outros, servidão e miséria. Ainda assim, a ideia de igualdade não vinga senão sujeita a inúmeras ressalvas, a maior parte inexplícitas. A partir da nossa própria inconstância listamos várias noções fundamentais: 1) a individualidade definida como um núcleo de atitudes e tendências inamovíveis em cada um; 2) a tolerância às nossas incoerências, erros e exceções; 3) a intolerância em relação à irracionalidade alheia; 4) uma escala de méritos paralela à eficácia racional sendo a eficácia sempre racional e o racional, uma forma chata de eficácia; 5) o acesso ao poder que se alcança com ou sem mérito, mas com eficácia (racional ou não) e, quem o detenha, cultiva a sua individualidade, abrindo quantas exceções lhe apeteça para as suas incoerências e erros, e punindo as dos outros a fim de os manter bons cidadãos. Para a sociedade a bondade não conta; é um luxo, um rococó na autoimagem do cidadão que parasita a miséria alheia para se enaltecer distribuindo esmolas mais ou menos exibicionistas. O cidadão tem que cumprir, não quer ser bondoso pois sê-lo é exorbitar da sua cidadania no sentido em que só ao estado cabe ser bondoso. Cabe-lhe cuidar e criar condições para que ninguém precise da bondade alheia. Porque ser bondoso é um luxo de pessoas que não foram suficientemente taxadas, que se escapam das malhas fiscais e das malhas do consumo pois a obrigação dos afluentes é consumir o mais que possam ainda que para tal não trabalhem, antes empreguem quem precisa de trabalhar – nesses enormes ócios apenas consumir, esbanjar sem critério pois cada objeto consumido deu trabalho a alguém e o estado tributou-o e tributa quem o compra. O que é preciso é uma lúcida consciência social e que cada um se satisfaça a seu modo porque também não há verdadeiros pobres; há pessoas que ainda não venderam tudo, o seu esforço, o seu engenho, o seu corpo, o que seja. O mercado está preparado para comprar tudo, a obrigação dos afluentes é comprar, não é oferecer que é roubar a um pobre a dignidade de cidadão de uma sociedade de mercado. Pô-lo de fora, mero recipiente, fora das autorregulações do consumo. Ser generoso é um ato de rebeldia civilizacional que contesta vigorosamente os pressupostos da sociedade, que destrói os seus heróis, que atinge o âmago das transações culturais, não tanto como Thoreau que era um idealista consequente, mas inofensivo, mas como Jean Jacques Rousseau, um regressivo absoluto, um hippie precursor a quem hoje chamaríamos preguiçoso e reacionário.