Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

independentemente de existir, Deus é benéfico para os sistemas?

Não vamos pôr a questão da forma arruaceira (Deus existe ou não existe?), pois uns responderiam: «Claro que sim» enquanto outros viriam com a incompatibilidade divina com o mal, com as guerras, os sismos, as doenças, ao que os primeiros responderiam cinicamente tratarem-se de meros sistemas de regulação de forças, que o mundo não é para ser dito por filósofos nem por teólogos sem fé – deverá ser visto suficientemente do alto como fazem os astrónomos, os astronautas, os poetas e, também, Deus. Visto do alto, o mal não se distingue do bem: são estados do sistema e o sistema muda para um próximo estado de uma forma estocástica, independentemente do mal ou do bem. Os que dizem «Deus existe» acreditam que o sistema solar não desaparecerá ou que, caso desapareça, haverá tempo para a maior parte da humanidade emigrar para outros lugares da galáxia; os que descreem vivem em sobressalto, pois cada vez há mais ocasiões para um cataclismo totalmente devastador. Porque haveria a humanidade de sobreviver, perguntam, e, embora descreiam, ouve-se Deus pensando o mesmo: «Porque hei de fazer sobreviver a humanidade que é uma espécie tão corrosiva?, que ora me abandona ora me venera insensatamente, sempre atribuindo-me novos formatos. Esqueceram a minha voz no Antigo Testamento: a piedade é a autoindulgência de um deus para com os seus fracassos de criador de humanidades. Esta humanidade autonomizou-se de mim, vai perder-se e nem Cristo a salvará». Não há uma prova objetiva da ação de Deus sobre os sistemas, enquanto é bem visível a ação corrosiva (como o próprio Deus reconhece) da humanidade sobre o seu planeta. Como fundamentar uma esperança senão na ação do próprio homem?, que os conflitos de interesse se resolvam em paz, que mais ninguém pense em guerras nucleares nem em matar, que as questões de fé não sejam mortíferas e, sobretudo, que o consumo não nos destrua. Assim, o impacto divino a dar-se (no caso de Deus existir) limitar-se-ia à conservação das almas até ao final dos tempos e ao acesso a uma prometida felicidade eterna; no caso de Deus não existir, embora mais lógico e fácil de explicar, o sistema perde sentido: as procissões e os templos, meros símbolos de como se engana o nosso cérebro, de como se deixa mover em tarefas indómitas por convicções insustentadas. Deus é um aviso para que não nos destruamos.