Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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insolucionavelmente

Hoje, que possuímos a descrição completa de cada instante do cérebro, podemos focá-lo de diversos ângulos como um vulgar objeto tetradimensional ou deslocá-lo e construir conjeturas de glória ou de humilhação para onde ele nos arrastará se o tomarmos a sério ou o levarmos às últimas consequências. Husserl acabou, podemos afirmar: a objetividade inclui a subjetividade e lá aparecemos, os grandes poetas à frente com as suas fulcrais distinções disfarçadas numa forma de dizer ajardinada a gosto, e, depois, nós em cuja consciência tudo se mistura. Devemos, contudo, respeitar a aridez filosófica, cultivar formas de dizer cuja espalhafatosa precisão já não é acessível, devemos até formular versões alternativas da verdade como na arquitetura dos abrigos antinucleares. O próprio Fausto de Pessoa é um falso problema filosófico, um caso psicológico de inconformidade com as regras do pensamento: da ansiedade de tantos infinitos convergindo sobejava-lhe a noção obstinada de aborrecimento cuja psicocirurgia pouco proporcionou: as cenas paradisíacas dos nossos primórdios não enraizaram na linguagem, provavelmente perderam-se durante a evolução dos sistemas neuronais nacionais. Aguardamos uma desmaterialização cronologicamente orientada até ao surgimento da consciência para julgar os resultados exatos dessas investigações históricas. Antes, as orgias eram a regra quando os matriarcados dominavam, nada estava previsto, a gravidez era um puro arrancamento ao corpo em que o homem procurava envolver-se. Como outros órfãos, amarrado ao silêncio da ausência, Pessoa nunca compreendeu o cérebro nem sequer as suas máscaras triviais na linguagem e na consciência, por isso, viveu à deriva pela literatura clássica. Esteve a um passo de ser um homem de ação, um político, um líder com um variável sentido da oportunidade e da justiça. Rodeado de Ofélias e de Camélias, também de Cremildes e de Beatrizes, teria compreendido o amor estar além da sua enfezada miséria biológica, decidir-se pela avidez do prazer e não pelo histórico das suas masturbações. Ainda hoje o ouviríamos como ao Walt Whitman, gritar o instante da penetração, noite dentro com os soldados nos hospitais de campanha, feridos, ossos quebrados, mas ávidos de dar sentido e uso às suas gónadas hiperativas. Como despojos de guerra, entregavam-se à terra queimada sôfrega de feminilidade que habitava o poeta. No Fausto ouvimos, pelo contrário, a negatividade da consciência interiorizar-se numa culpa castrada. Ouvimos os seus arrepios, assistimos aos seus prosaicos horrores, descremos dos seus sobressaltos por adivinhações sorumbáticas ou por «mistérios» na terminologia do misterioso. Ele tinha razão pois o amor era não-intencional, vazo do querer de uma presença, a própria consciência do amor como estado da alma lhe destruía o desejo. É quando recria Fausto; a personagem é a não-intencionalidade da consciência, o puro pensamento quando falha alicerçar-se, até na poesia, e, assim, puro branco, o imenso que contém é receptivo e feminino como o princípio do mundo.