Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

isto é o meu cérebro

Tenho a impressão de que o cérebro se altera, mesmo se tento manter aproximadamente as mesmas atitudes político-culturais que desenvolvi pensando no melhor mundo possível. Não é uma convicção forte, mas uma dedução a partir do ímpeto, seja da cabeçada na porta do armário da cozinha, seja dos noticiários de inspiração religiosa que, na realidade, referem a uma intrínseca brutalidade civilizacional que as religiões não conseguem conter, seja, ainda, dos anúncios diretos da ação dos deuses ou dos cataclismos cósmicos ou telúricos sobre um sistema que pareceria estabilizado. Assim verifico que o cérebro se altera como qualquer sistema físico, com a sua pequena entropia provocando alguma ternura pelos lapsos da memória aos quais antes atribuíamos uma grande carga simbólica. De certa forma, simplifica-se como se a sua anterior motorização se tivesse tornado excessiva. Por outro lado, o mundo evolui ao contrário do cérebro: cada vez mais complexo, parece pretender derrotá-lo, humilhá-lo, perdê-lo. O cérebro, após milénios a produzir e a destruir teorias, resignou-se à boa vida como um vulgar hipogrifo e assim chegamos à pós-modernidade com toda a história num diagrama simples e muita bioética à flor da pele e outras teorias da manha.