Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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Job

O filósofo enlouquecido abraça o cavalo e chora agarrado ao pescoço. O dono e a filha agrediam-no violentamente por se recusar à carga. Seguira-os como um cão dócil, mas estacava de cada vez que lhe atrelavam a carroça. Foi a filha que a puxou. Nem a fome nem os torrões de açúcar nem as chibatadas o demoveram. O animal sentira a quebra contratual entre ele e os seus donos que não respeitaram os seus direitos de animal doméstico e o fechavam à fome no curral. Absorvidos nas rotinas que desgastam a vida, em desdobrá-las mais e mais até nada e vazio se entrechocarem, deixaram o cavalo degradar o seu vigor nervoso e cair como numa melancolia que lhe desorganizou os instintos. Que fazer senão negar-se, opor-se ao que lhe solicitassem se nada do que é um cavalo ele tinha. Por fim, o poço secara e tiveram de abandonar a casa. O animal doméstico pertence à casa, à vida da casa, quando esta se torna inviável e desaparece, mesmo antes de a água faltar, ninguém é dono do cavalo. O filósofo compreendeu; mais uma vez compreendeu ser preciso redefinir tudo. Começar pelo silêncio. Defini-lo pelos seus atributos positivos, não pelas suas virtudes cinematográficas. Definir redundância e objeto, definir o valor poético de cada palavra e enunciar as razões para não a pronunciar. Ele conhece, a partir de dentro, o indefinível da loucura, como, a partir da sua vertigem, pensá-la só a atiça, a conspurca com razões parasitas quando a noção sobre humana de espírito falha como um porco tropeça e parte a perna como um bêbedo vulgar, como um cavalo aprende a odiar quem deixou de o cuidar ou como as limitações de um camponês hemiplégico arrastam a horta para um estado de selvagem indiferenciação. O vento é uma metáfora demasiado ubiquitária como se a desgraça atmosférica tombasse numa situação que queremos tornar paradigmática, uma cólera meteorológica punctiforme incide num microssistema vulnerável – é preciso uma grande capacidade de inventar justificações para que uma teoria da bondade se mantenha. O filósofo chorou, o seu cérebro fustigado pelas chibatas do destino, chorou com ele. O cérebro estaca e chora quando se apercebe que se desfaz – estaca como um cavalo, sapiencialmente, mas sem as virtudes de Job.