Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

KEOPS E O ORÇAMENTO DE ESTADO  

Quando visitamos as pirâmides de Gizé, ou as outras dezenas delas dispersas no deserto, pensamos na eternidade, ou no que se pensava que ela fosse. Quem tenha vivido o seu corpo, sofrido pela sua fragilidade e morrido pela sua vulnerabilidade ter-se-á questionado se eram assim, inexoráveis, as regras do jogo, portanto, quando assistimos às pirâmides de Gizé temos de nos maravilhar com o que o cérebro é capaz de pensar, para mais em domínios onde o eco desses pensamentos é geral. Mas sê-lo-á? Será a eternidade uma aspiração universal ou um luxo para pessoas que não esgotaram durante a vida a suas ambições de viver. E quem poderá desejar esse prolongamento? E se tal prolongamento for possível, nem que seja por poucas horas, então também o é indefinidamente – é como chegamos à noção de eternidade. Para a grande maioria da população contudo a vida vivida é um todo que se fecha e a noção de alma a salvar não é uma evidência mobilizadora. Por isso se constroem menos monumentos funerários. Antes a noção de eternidade associava-se à ideia de merecimento e recompensa que tinha acoplada uma noção de justiça irrepreensível e um célere braço executivo. Era respeitável e consistente a justiça divina. Não é a ideia que temos da justiça humana que, se é rápida erra muito e corrige mal os seus erros, se é exaustiva, a sua lentidão permite todos os abusos, se é manhosa ou aleatória, torna-se necessariamente temível como um bêbedo com maus vinhos que não apetece encontrar. Uma enorme pirâmide pode representar uma opção política de criar emprego, de mobilizar os recursos do estado em torno da personalidade do seu líder. Dado o aumento progressivo da população desempregada, prevê-se a retoma das políticas orçamentais de mão-de-obra intensiva em construções cada vez mais grandiosas e inúteis.