Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

lembrando o desespero obstinado de Bertrand Russell

A morte do Sol encerrou a fase terráquea da literatura de ficção científica. Ignoramos quanto tempo poderá a humanidade terrestre sobreviver numa lenta agonia vivendo em túneis na espessura do magma, mas nessas profundidades apenas a poesia lírica tem florescido: pequenos trechos que mencionam o limite, a ignorância, o erro, sobretudo a crendice científica e um milenar humanismo gabarolante expressarão a perplexidade frente à ruína do templo humano. A poesia, desde logo monumental e epopeicamente, a mente cantando como se as coisas vistas dos píncaros com as nuvens do crepúsculo encarnecendo o firmamento lhe proporcionassem corpo e matéria; as coisas do pensamento fossem o anúncio da realidade apenas sujeitas às regras lógicas da plausibilidade. Mas o pensamento são átomos instáveis e corpúsculos saltando de órbita para caminhos fora das prévias redes neuronais. As promessas, as esperanças, as utopias são episódios como sonhos que terão alguma função porque assim gostamos de pensar as coisas: úteis e anafadas ou lixo e traumas sujeito a catarses profissionais ou sublimantes. Mas, além deste encadeamento naturalista de causas, provimos as coisas de um sentido: ser-nos-á útil defender ainda propriedades de conjunto como o amor e a felicidade?, esses estados não serão meras abstrações verbais de uma culinária social patogénica? Qual a vantagem de nos iludir com a estabilidade do destino e com uma organização moral com códigos, leis e declarações demasiado estruturantes quando milhões de anos volvidos, estamos debaixo da terra, vivos ainda, reciclando até o ar e a água? Se antecipamos o vazio entrópico, algum dia, biliões de anos adiante, todo o cosmos se anulará; conseguiremos aforrar as descomunais quantidades de energia necessária para delimitar zonas do espaço sem expansão nem colapso? Trouxemos a isto a poesia de uma humanidade que come cogumelos, se embebeda com vinho de cogumelos, se entorpece com extratos de cogumelos e morre cada vez mais tarde em caldos de cultura de uma harmonia apodrecida. Será a carne de toupeira apropriada? Temos milhares de colonatos espalhados pelo cosmos; o fogo, o heroísmo, toda a devoção, toda a inspiração, todo o glorioso brilho do génio humano se dispersaram e fizeram a humanidade sobreviver à vasta morte do sistema solar. Como se houvesse, desde o bigue-bangue, uma previsão do trajeto, uma tendência à elaboração da energia em formas capazes de manter debaixo da terra, acesa a chama da poesia, acesa a luz de uma racionalidade intermitente que, se falha no plano individual, conduz a matéria cósmica para níveis de complexidade magníficos. Aqui, hoje, soterrados como minhocas, esperamos o socorro de uma civilização irmã. Chegará e salvar-nos-ão, sabemo-lo desde a matriz das nossas moléculas; temos uma salvação limite inscrita no enrolamento dos nossos genes, uma esperança indómita – o sol não nos engolirá. Só connosco, terráqueos, conseguirão as humanidades extraterrestres desenvolver o projeto de delimitação do bigue-crunch. Tínhamos teorizado, milénios atrás, o isolamento matemático de porções do espaço. Não havia, então, tecnologia disponível nem vimos logo uma utilidade no projeto, mas foi desenvolvido no quadro dos estudos de Teologia Experimental dadas as suas implicações. Hoje estamos preparados para isolar uma porção do espaço com uma estrela equivalente ao sol e recolocar alguns planetas na sua órbita. Se ainda tivermos tempo, poderemos repetir a operação poucos séculos após e fazer os dois universos evoluírem autonomamente. Isto acontecerá e escaparemos antes que a luz vermelha do sol moribundo cresça sobre nós e degluta a Terra. A literatura de antecipação continuará após a estabilização das nossas novas limitações.