Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

MADAME CURIE  

«Hoje é domingo» assinala a banalidade que é o suceder no tempo – ao domingo, apenas jogos de futebol. Também, restos de acontecimentos que não foram conversas conclusivas nos dias passados. Quanto ao mais são os acontecimentos habituais das democracias parlamentares e as fachadas dos grandes bancos milionários como toupeiras esburacando o sistema. Corrompendo e asfixiando. Vendendo armamento. Antes havia Deus. Em particular ao domingo, havia Deus. Deus era mais ativo ao domingo ou aproveitava a nossa inação e a nossa bonomia para nos fazer pensar na melhor forma de organizar a semana seguinte. «Prever para prover»; ao domingo reparamos como pouco conseguimos prever, como as leis positivas que usamos na nossa meteorologia privada falham e quando nos desculpamos «É complexo» já estamos a reconhecer o rotundo falhanço do nosso pensamento, estamos a abrir caminho para regressar a uma forma mágica de olhar a nossa vida numa perspetiva demasiado ampla como se ela coroasse a evolução da subjetividade e desta dependesse o aparecimento de novas espécies e de novos reatores nucleares. No íntimo temos alguma lucidez sobre a nossa insignificância e quando perguntamos à natureza «Donde vimos?, o que somos?, para onde iremos?» só podemos obter respostas falaciosas ou apodíticas, baseadas nas nossas próprias convicções. Fica, assim, difícil sair disto sem passarmos por uma razão metafísica que nos permita pensar as coisas, não como poetas líricos eivados de dúvidas sobre o espiralar dos aspetos como se nada os relacionasse, mas, aproveitando o ócio dominical, deveríamos examinar o que existe de nebuloso na nossa mente e, simetricamente, o que existe de mental numa nuvem, também pensar em como as nuvens aparecem e desaparecem do firmamento – como a humanidade na terra, e no entanto podem provocar grandes enxurradas, ou chegar a causar, com um dilúvio, o desaparecimento de dois terços das espécies. Hoje, domingo, a humanidade parece-me relativamente tranquila, talvez apenas porque os jornalistas estão de fim-de-semana, mas amanhã não me posso dar ao luxo deste pensamento translato onde as coisas interagem até com o nosso olhar e, ao tocá-las, ignoramo-las. Amanhã, nem Deus nem física quântica, as coisas têm que estar limpas, o ser-em-si separado de outras essências irrelevantes ou prejudiciais à sua pureza conceptual. Esta noção de contaminação vem dos primórdios da modernidade e marca a longevidade humana, mesmo se a radioatividade que cura também nos mata tal como as nossas dúvidas teológicas, ou filosóficas, ou meramente linguísticas, que sabemos hoje onde nos levaram.