Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

MADRE TERESA DE CALCUTÁ  

Quando alguém ri e também rimos, não estamos a achar graça da mesma forma que nos afligimos se vemos alguém assustado ou nos preocupamos se vemos alguém triste. Tratam-se de automatismos sociais que nos reúnem em torno de uma piada sem graça, de um falso alarme ou de uma qualquer pieguice, mas se alguém nos olha fixamente nos olhos e lemos coragem e frontalidade nesse olhar, nada deveremos concluir sobre a sua coragem e sinceridade pois podemos estar perante um hábil aldrabão, um psicopata manipulador das opiniões alheias e de sentimentos que ele próprio não é capaz de sentir. Nas nossas pupilas dilatadas vê o medo que nos desperta. O único modo de lhe resistirmos é, também, fitá-lo nos olhos, as suas pupilas contraídas, confiante que nos endrominará com facilidade. Devemos desconfiar não apenas destes vígaros, mas, em geral, da nossa disposição à simpatia. Todos os governantes leram Maquiavel e o «Mein Kampf» e têm demasiadas ideias sobre a felicidade dos outros e sobre o que convém à humanidade. Muitos tiranos dividem-na em bons e maus e alinham-se ora por uns ora por outros, distorcendo as respetivas histórias, manobrando os respetivos interesses de modo a dominar ambos. Esta utilização tática dos mecanismos da empatia pelos estadistas engana a nossa disposição a acreditar que eles têm intenções e ideias para o bem comum. É, também, crucial na popularidade dos políticos democráticos e chegamos a acreditar que os governantes imitam a Madre Teresa de Calcutá e sentem igual piedade pelos desfavorecidos da sorte. Ter piedade é gozar o poder – e o poder estonteia (ainda mais os impiedosos).