Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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MELHORES ARES  

Sobre a morte não há muito mais a dizer. Ou nos rejuvenescemos seja por que processo for, ou tentamos que ela nos apanhe num momento favorável. Não se trata de posar para esse momento, mas de não perder uma respeitabilidade e uma integridade que procurámos manter toda a vida. Se for a tempo, a medicina lentifica o aniquilamento: envolve-nos num processo em que vamos largando funções vitais e acumulando dependências abjetas: começamos por perder cabelo, por nos esquecer dos afazeres e não há agendas que nos cheguem; depois, vai-se o controlo dos esfíncteres e voltamos às fraldas, agora de uma forma aviltante, achamos que mais vale demenciarmo-nos para não perceber bem o que se está a passar. De qualquer forma, já nos desequilibrávamos um pouco, tinham que nossa amparar como a bebés. Mais adiante, não respiramos sem ventilação assistida com as botijas de encher balões na feira para os miúdos; o coração, arritmado, subordina-se aos pulso elétricos externos como um vulgar autómato; nem os rins filtram as pestilências do sangue, nem o fígado nos purifica; precisamos de muletas e cadeiras de rodas, de algálias e de uma cama articulada donde podemos já não mais sair com vida. Por vezes, ainda utilizando todos estes recursos, mantemo-nos vivos no sentido de preservarmos uma trôpega dignidade que é, sem dúvida, uma admirável dignidade. Por vezes, uma única dignidade: se ainda falarmos, a voz parece vinda de um oráculo que contém um grande tempo onde as coisas concretas não cabem porque foram esquecidas e o que a voz diz alude ao verdadeiro esqueleto da linguagem onde os conceitos constantemente se purificam. Não numa gruta de sombras, mas numa gruta de deslumbramentos, de evidências ocas, simples, incoercíveis, por isso a morte se aproxima e não há muito mais a dizer. Não foi possível, ainda desta vez, rejuvenescermos, mas resistimos melhor à degradação da idade mais lentamente graças às nossas redes de comboios subterrâneos, aos frigoríficos ultra-fornecidos, aos ginásios que nos robusteceram a alma. Presos à cama, alimentados por sonda, a alma dispõe-se a deixar-nos em busca de melhores ares. Neste momento, gostaríamos de acreditar que existissem.