Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

metaliteratura

Agora que está escrito o texto, o que comunica?, e com quem? Expõe, manifestamente, uma atitude para com os insetos e defende um estatuto privilegiado para os humanos na biosfera, mas é comunicação o seu propósito?, ou, antes, através do texto, construir uma atitude face à morte e aos sistemas em que a vida se insere – a escrita como autoconstrução de aspetos da sabedoria? Nenhuma transcendência: é o processo que traz ao papel o que não se configurara nem na consciência nem na voz – um passo num movimento da mente para a totalidade e para o reconhecimento dos limites do entendimento. Para o reconhecimento dos limites do sentido o qual não é uma fórmula explícita, mas um sentimento de intimidade com as coisas, da harmonia das suas relações e das tensões entre as forças que as movem. Matei a traça porque pude fazê-lo, um atavismo como tantos outros que não submergiram na simbolização com que a cultura cobre os gestos. Não os lamento. O texto sobre a morte da traça retoma a dignidade aeronáutica da traça, a sua evoluída morfologia fusiforme, a mecânica adejante da sustentação no ar – e lastima a precariedade dos seus processos de navegação noturna que acabaram por ser fatais. Não consigo ir mais além. Prezo o mecanismo da vida, embora a traça morta me seja mais simpática do que ruidosamente viva.