Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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METAPOLÍTICA    

Quando repensamos um país, depois de olhar nos olhos cada cidadão, perguntamos com o que sonham? Não nos respondem de imediato: a reflexividade centra-os nas questões que afetam a alimentação pública sem vagar para se abstraírem do corpo e mergulharem num patriotismo puro. As saídas do sistema, em particular as ramificações individualizadas do sistema de esgotos transportam, de cada lar, o cianeto sub-amoroso das melhores orações. Alguma uniformidade existe nas solicitações dirigidas a um supremo organizador do destino. Das suas rotinas induzimos um local recôndito para onde são coligidos os detritos que sobejam da esperança. O sonho ergue-se do fundo do mar: a vida tem os seus pressupostos e uma das caraterísticas marcantes de uma cultura são as batotas com que tenta iludir uma norma geral que as propostas amorosas devem seguir e que inclui o desarmamento dos argumentos e a abdicação explícita do recurso à maternidade perante a angustia de extinção. Cada cultura deve proporcionar a cada cidadão um manual de retórica e todos os sonhos, ainda que criativos e ricos de sentido, devem seguir modelos formais que objetivem a extração de premonições de modo a que o governo de cada país possa seguir políticas bem orientadas para os inconscientes dos cidadãos. Porque não existem critérios de legitimação – todos os ideais foram referendados repetidamente; os que tiveram resultados inesperados, analisados até à exaustão pois a partir de certo nível de complexidade o direito das maiorias perde-se contaminado pelos ideais mais sórdidos. É quando triunfam os demagogos: indigentes perdidos na sua grandiloquente auto-confiança, levam o amor-próprio à grotesca exibição de um denso oco interno. Suicidar-se-iam, outros morreriam cirróticos ou autointoxicados por pastilhas do bem-estar logo que se encontram sós, sem admiradores. Eles são uma excrescência cultural abjeta: cada nível do sistema produz dejetos – um país deve ser repensado em função do redirecionamento dos dejetos – um país organizado redu-los à sua expressão mais simples e afunda-os no oceano com as outras sobras do sistema culinário e resquícios de valores de toda a ordem. Idoneidade culinária significa hoje mais que a descontaminação por eschirichias e salmonelas, significa uma identidade nacional estabilizada com as vitórias históricas bem contextualizadas, os troféus artísticos corretamente justificados e abertos ao turismo, e um detalhado inventário das vulnerabilidades com livro de instruções e disponibilidade de auxílio psicoterapêutico numa modalidade eficaz. Embora não compita ao governo a felicidade individual, compete ao governo a felicidade coletiva.