Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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metilfenidato

A maior parte da população atual situa-se algures no espectro autista. Vivemos numa época em que quase tudo é compreensível e quase aceitável, mas também em que quase todas as pessoas apelam à nossa atenção, contudo, a maior parte nada nos pede, nem voto, nem esmola, nem sequer um «Bom dia». No passado a linguagem fora um instrumento de comunicação útil; agora usamo-la para tornar equívocas as circunstâncias que são, em geral, demasiado explícitas – aborrecidas e redundantes. Quando se atinge a puberdade cada um já disse tudo o que tinha de saber sobre si e sobre os outros. Todas as pessoas são educadas no valor do próprio individualismo, mas os artistas são treinados em programas que incutem modos funcionais autistas: 1) ensinam-lhes a criar a uma linguagem própria com a qual deverão descrever imaginações incomunicáveis; 2) ensinam-lhes a construir projetos desrealizados ou com, apenas, uma ténue ligação à correção social (sexual e política); 3) ensinam-lhes a prevalência da arte sobre outros valores e sobre outros critérios de ação, mas 4) ensinam-lhes o valor do dinheiro e da fama como finalidade última da arte, da vida, como glória cultural, até; 5) ensinam-lhes a criar ruído pois qualquer tema é bom desde que seja adotado pelo público; 6) ensinam-lhes a necessidade de serem vistos parecendo que socializam, mas cada um comunica consigo, ninguém lhe liga, nem ao que diz, nem ao que faz; qualquer ego vale o que ganha e é o que é preciso ostentar. Por isso, a importância da arte no sentido em que descobre a verdadeira função contemporânea da linguagem, iludir e rasteirar – servir o indivíduo muralhado no micro-pedestal da sua imaginação. Por isso, as artes se tornaram tão politicamente importantes: a sua degradação marca os novos caminhos do progresso; o autismo artístico anuncia no que se tronará o nosso cérebro e a nossa linguagem, colada a tudo e nada significando, uma vozearia estonteante que o nosso olhar persegue, mas cuja informação já não sabe utilizar. O presidente da república fala para si, o vendedor de gelados fala para si, bem como o jornalista e o prestidigitador, o homem que fala à mulher fala para si, a mulher que fala ao homem fala para si. Depois dos quatro anos nenhuma criança liga aos pais que falam para si. Eles acham que a criança é autista e que tem um défice de atenção; a criança acha os pais autistas intratáveis e que deveriam também tomar metilfenidato.