Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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MODO DE USAR O CÉREBRO  

Como se tivéssemos recebido o cérebro numa versão finalmente humana, começámos pelas perguntas mais difíceis: «Donde viemos? Para que vivemos? Para onde vamos?», mas não obtivemos respostas cabais. É sempre assim quando recebemos um brinquedo novo: explorar a sua utilidade a partir daquilo que ele não faz; descobrir o que ele não é e jogar com essa identidade negativa, como se fosse a imagem de um deus. A primeira função de qualquer cérebro evoluído é representar; para isso, interpreta e, para interpretar, pressupõe, isto é, inventa analogias que sirvam o que ele quer representar – assim é o teatro. Algumas personagens precisavam de um criador totalmente extrínseco, alguém que dissesse «Fui eu» e como tal fosse amado, mas a maior parte das configurações humanas sustêm-se, desde o princípio, em matrizes psicodramáticas invariantes; mitos e deuses que foram aparecendo à medida que o cérebro era capaz de formular novas perguntas. Quanto mais insustentáveis as convicções mais fanaticamente eram defendidas, até que, após algumas revoluções, se foi tomando consciência da injustiça e das virtudes que computam a felicidade. Pensou-se que, se o cérebro avaliar o que falha e o que falta para a perfeição, então é porque a perfeição é possível e vale a pena esperar. É esta espera secular que tem alimentado os milenarismos, os sebastianismos e, mais recentemente, os marxismos. Pode-se concluir, portanto, que esta versão do cérebro ainda não é definitiva pois põe-nos à espera de cenários que ele próprio cria; não é suficientemente sensata para evitar as consequências dos seus próprios vícios lógicos. O único modo de nos protegermos de tantos disparates é separarmos o eu do seu cérebro, isto é, habituarmo-nos à humildade de um pedinte à espera de uma solução como de uma esmola, espantarmo-nos com essa esmola, examiná-la antes de a usar. Só depois agradecer ao cérebro que, magnânimo e superior, nos sorri como se nos possuísse ou dependêssemos só dele.