Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

monólogo cósmico

Porque se escondem as civilizações extraterrestres superinteligentes (CETSI) deixando-nos a falar sozinhos no universo? Que avaliação fazem da física e da poesia que não procuram os nossos autores? Desconhecem Arquimedes e Fernando Pessoa, ignoram Shakespeare, Confúcio e Einstein ou tomam as suas obras como pedra lascada? Quanto a mim, o diálogo é impossível com os nossos telescópios de vistas curtas e obsoletos radioscópios “descobrindo” galáxias redundantes. Nunca mais deixamos de pensar o mundo a partir do nosso trono civilizacional onde pretendemos um lugar visível na fotografia de grupo com os bacalhaus, e as ostras, e as árvores dos bosques, os seus esquilos e demais Disneyworld aos pés. Não saberíamos onde nos colocar se aparecessem de repente os representantes das CETSI. Resolveríamos a situação com a tolerância cosmopolita de Fernão Mendes Pinto ou com a diplomacia violenta do Albuquerque? As nossas mensagens ainda não venceram a velocidade da luz de modo que só daqui a séculos receberemos eventuais respostas num português que já nos custará decifrar. Como se nos apaixonássemos por um surdo-mudo fascinante e resolvêssemos esperar que os progressos da otorrinolaringologia resolvessem o défice de transmissão no nervo auditivo, só então obter uma resposta aos nossos apaixonados anseios. Poderá a paixão durar, assim se alimentando do seu devaneio? Como esperar apenas preparando o corpo para uma resposta que ignoramos em que frequência e em que referencial nos chegará? Sonhamos com a domesticação de um buraco negro para mobilizar uma luz rápida adaptada à ânsia, ao desejo, à paixão ou até que essa luz se conforme numa imagem tridimensional corporalizável. Poderemos então amar-nos através de replicantes mantendo uma supertelepatia neuronal que não se sustém nas ondas da sugestionabilidade histérica para plateias de idiotas, mas numa simbiose neurodigital que se dissemina exponencialmente entre humanos. Assim, sem maior redundância, se elimina o equívoco da linguagem explicitando-a num formato semântico pós-conceptual. Mas se somos capazes de pensar tanto futuro, seremos capazes de o fazer acontecer? Entretanto, enquanto mantemos esta atual relação precária com o possível, como explicar o silêncio cósmico?, será que enojámos os nossos interlocutores universais com as imagens que difundimos das nossas guerras, dos bárbaros desportos, dos entretenimentos concursivos ou de esmiuçamento sexual das estrelas em voga? A primeira e mais simples retribuição da simpatia é a imagem do eco: as CETSI não terão nada de semelhante com que ecoar a nossa ânsia de interlocução ou seremos nós que ignoramos as suas respostas? Desta vez, não queremos ouro e especiarias, mas informação e tecnologias. E se nos sonegarem a memória e nos subjugarem com a tecnologia? Não fizemos o mesmo?, seríamos capazes de resistir a dominá-los? Lamentavelmente sem interlocutores, exercitamos o nosso altruísmo distópico em sociedades perfeitas fingindo acreditar que não as perverteremos (democraticamente ou não).