Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

NÃO ÀS PROMESSAS DO POETA  

Hoje, é impossível imaginar para que serve o que dizemos. As próprias metáforas são perguntas sem resposta. Qualquer um parece um agente secreto. O agente tem propósito, determinação, um comboio que vai perder, um jornal que o esconde num futuro próximo planeado com minúcia. Porque a prazo não existem coincidências, o acaso é um tropeção, algo que não bate certo e exige que o proclamemos gloriosamente – e, também, que o silenciemos numa música de imagens invisíveis. O agente nada diz, sabota; o poeta hipnotiza com palavras que rodopiam e bailam quando nelas descobrimos a beleza de vulcões extintos. São elas que propulsionam as bailarinas nos abraços aos deuses – os seus imperscrutáveis sorrisos indicam a direção incoercível do poema e seguimo-la (como a uma vontade coletiva). Assim, rebocam a civilização as vanguardas que, à frente, esbracejam. Pós-modernas, neo-românticas ou góticas, seria o tempo de a poesia arrastar a humanidade no voo pelo seu nada sonoro. Mas, antes, prevalecem tecnologias muito erotizadas. Utilizam-se em tarefas secretas: o bem da pátria confunde-se numa maioria saciada de chocolate, de fumar e de beber um pouco demais. Quase trinta por cento dos cidadãos são bonecas insufláveis muito ativas – a fé não chega: é de menos e são demasiadas as promessas que a poesia vigia e captura e palreia de boca em boca. Os machos enrugam a água na boca como iguanas vibráteis muito compenetradas do destino. À porta da maternidade prometem, prometem, prometem – prometem parar de jogar aos dados um cosmos cheio de infinitos, mas a virilidade não a estabilizam, a indeterminação não a resolvem. Ainda assim, a cidade germina das mentiras como uma bala a florir; as gravatas desbotam em uníssono com os soutiens e os ídolos, botas de aço calçadas e sorrindo para nós que temos alguma forma de masculino, de feminino ou de ambos que desmagnetiza a fechadura da coisa dura. Assim libertos, abrimo-nos a uma ambivalente oposição: como enquadrar na poesia replicantes, cyborgs e outros androides?, tentando mantê-los submissos e inventivos como antes os parceiros insufláveis? A conclusão que defendemos menciona o progresso não ser linear, o amor secreto do agente, o deputado com a sua corrupção e outros serem encruzilhadas de substantivos plurais sem género – pura significação a florir com a andorinha trazendo a primavera pelo belo sem acasalar masculino e feminino.