Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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NÃO É BELEZA A BELEZA DA PRIMAVERA  

A primavera é um princípio genérico que aplicamos como uma hipótese otimista ao que a vida traz. Quando já sabemos o que se segue. É um grande princípio homogeneizador e é como tal que irrompe na poesia com as suas borboletas e outros animais de efémeras vidas. Nenhum poeta fala das larvas da borboleta nem das crisálidas sequer, mas atribui à beleza primaveril da borboleta uma perenidade errónea. Ou a beleza, por definição, é efémera como a de Cleópatra e a de tantas mulheres que, após um intenso usufruto, se viram dela defraudadas e, ressequidas, engordaram como se a multiplicação das carnes as salvasse das rugas; ou se a beleza, por definição, não é efémera, se resiste à moda, à circunstância, à época, a beleza periclitante das borboletas não é beleza. Neste caso, a nenhum dos artifícios de sedução com que a natureza dotou os seres se poderá aplicar a noção de beleza: 1) a beleza que existe em alguns seres não faz deles seres belos: seriam belos porque nos fascinam ou fascinam-nos porque são belos, mas esse fascínio que perece é um manto de engano que armadilha os seres, um manto que coage quem o usa e quem o contempla é perverso; de tal ser que é perverso, pois que o usa para fascinar, poderá ser bela uma pintura que o retrate ou uma escultura que o represente; 2) e, contudo, muitos seres procuram formas belas (ou são atraídos por formas belas), esta atração vizinha do desejo, vizinha da reprodução e da imortalidade, é desencadeada por dispositivos primaveris que os corpos usam a seu bel-prazer; 3) pois que esses seres que atraem, são também atraídos por quem atraem; ambos se desgastam como torturadores, se mastigam, chegam a morrer e isso que os atrai é uma forma facultativa, logo inútil senão pelo facto de atrair; assim as formas dos dispositivos naturais de atração poderiam ser outras, essa beleza é um acidente tornado essencial em matérias como o amor e a arte; estas deveriam ser consideradas como possuindo razões próprias distintas; 4) por outro lado, sendo desinteressada a apreciação da beleza, só aos objetos desinteressantes se aplicaria; 5) aplicar-se-ia, portanto, não às formas que encontramos na natureza, mas aos objetos inúteis que as retratam, que as mencionam, que a elas aludem, ou a outras igualmente inúteis que construíssemos para nosso deleite e esta definição de arte contém a imortalidade controlada que convém à beleza.