Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

não falar de coisas óbvias

Nos dias claros de primavera percebe-se melhor o que é ser português. A luminosidade rasa as construções e as ruínas indistintamente; veem-se os detalhes, as juntas, as fissuras, as coisas ficam nítidas (os conceitos turvos, mais turvos), as culpas aligeiram-se da mesma forma que os faróis nos extremos dos promontórios parecem menos ameaçadores. Mas não precisávamos desta informação adicional, o mar ocupa a maior parte da nossa noção de mistério – os seus levantamentos ora se sujeitam aos ventos ora convocam massas telúricas que nos entram pelos nervos. Por isso o dizemos familiar: ignoramos o que transporta, mas destrói e a sua imensidão sufoca-nos. Nos outros dias do ano, ser português é estar num lugar e ser para ele no sentido de que o quisemos salvar da mediocridade, mas ele devolveu-nos uma escala que não nos serviu; é estar em qualquer lugar como se fosse de passagem, mas demorar-se nove séculos sem pensar muito no que foi feito e no que há para fazer; ou é construir uma vivenda e viver na cozinha pois há que deixá-la aos filhos; ser português é curto-circuitar os limites da sensatez com algum ocasional êxito, entretanto, ser vítima de muitos textos idiotas sobre o que é ser português que é uma coisa que se é automaticamente como se é humano e se vê com os olhos abertos.