Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

não há ninguém na primeira pessoa

Depois de imolar o espantalho da primeira pessoa, o que fica do autor da fala senão um sonambúlico prestidigitador? Na luminosa sombra da mente, fixam-se os contrastes e as indistinções surtem como o luar irrompe das trevas (ou como a língua se rebola no mel, promete um lugar às células da alma – e um vínculo). Sou o autor, mas nada nem nenhuma negação conta para nada. Não sou um lugar com a respetiva estátua, mas uma entidade entranhada na mobilidade da terra: as águas do moinho de maré, os seus desníveis ao entardecer, a respetiva brisa, mesmo o Outono são coisas fugazes, autorias muito sintéticas e coloridas (sobre mim) num destino que o poema percorre vadiando pela transcendência. O verso: leva o pensamento à luz e no regato imóvel da consciência desaparece o pequeno fantoche. Os silvados cresceram e recobrem-no e, do fundo onde o ouço rumorejar, surde algo que avança direito a mim (como na alucinação um sabor estranho me vence). O que quer que seja – sou eu, só posso ser eu esse autor instantâneo da minha impessoal estatura entreaberta sobre o palco onde o meu poema se reconstrói. Chove e os utensílios da voz recortam da nuvem o seu musgo branco. A filigrana dos dias podia afastar-se deste necessário véu de erros onde, planando sobre o mar, me afundo nas nuvens. «Sou a ilha onde chegas com o meu livro nos braços. Habito a vontade inespecificada que diriges ao mundo encriptado cujas cinzas desenham pó no piano da sala», diria de si Pessoa. Lá do fundo, falam da grande casa do mar. Tentam antecipar um desenlace, imaginar alguém para a voz fora do âmbito do espelho, um catálogo de perfumes e vidro que o autor ora limpa ora estilhaça em imagens insustentáveis. Ora tu ora eu. Ora espelho ora vidro. Vidro não, certamente, e o eu não range assim.