Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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Natal 2016

O Natal é uma festa. Não interessa especialmente o que se festeja, é uma festa de esperança e de generosidade. É difícil ter esperança quando já temos tudo o que alguma vez desejámos e estamos contentes, mas é difícil ser generoso quando isso implica uma parte da nossa satisfação. Mas não é preciso dar nada, basta pensar que daríamos, um abraço, um beijo, uma esmola ou o sobretudo que temos vestido. Tudo pode ser dado ou não, o que é importante é criar uma atitude de abertura e desprendimento e, assim, tornar contagiante a ideia de Natal. Seria importante universalizá-la, comercializá-la, criar símbolos fáceis de identificar, mistificá-la de modo que, na ONU, o Pai Natal representasse com o seu trenó de renas aéreas, o melhor dos programas de intervenção no terreno. Também a ideia de um Salvador seria bem recebida na ONU, uma espécie de super-homem super-político no sentido de um 007 nietzschiano, mas sensível aos argumentos universalistas da Madre Teresa, pois a bondade precisa de eficácia e das tecnologias sociológicas de manipulação de opiniões num sentido a definir. Aqui na Europa, tanto antevemos as ruas cheias de luminárias e sacos cheios de coisas, tudo supérfluo excepto os bonecos de neve, como antevemos uma Europa sovina, cheia de foie gras, galantines e espumantes guardados na dispensa. Na verdade, o peru é um animal estúpido (o recheio pode salvá-lo), mas antes de nos empanturrarmos devemos pensar que o Natal sem peru ainda é uma festa (não é ocasião para a sociologia do peru), que o Natal, mesmo sem ninguém, solitário, mesmo sem Deus recém-nascido, ainda é uma festa, embora, então, nos pensemos no lado mais desfavorecido, como no teatro ficar atrás de uma senhora muito grande e com vultuoso penteado. Os reis magos se aparecessem não nos veriam e mais uma vez ficaríamos de fora sem presente. Resta-nos a televisão acesa a fazer barulho e a dar-nos uma ideia de felicidade. A TV não é um presépio; o presépio é o teatro do Natal, uma ocasião de nos teatralizarmos como se a paz, a justiça, alguma razoabilidade sistémica passassem por nós. Como se pudéssemos evitar atentados, bombas-relógio, proibir o comércio de armas, dar uma esperança às prostitutas ao frio e aos seus clientes que são os nossos primos e os nossos poetas. Já antes de Cristo era assim; também Buda nasceu de uma mãe imaculada. Eu acredito em tudo. A minha racionalidade conforta-me e adapta-se, mas no Natal todos os mitos me parecem plausíveis. Acredito mais hoje no Menino Jesus a distribuir graças e no Pai Natal do que quando era criança, quando se é crédulo por inércia e por subjugação. Hoje acredito por uma necessidade epistemológica de ser ingénuo e puro, acredito pela estabilidade dos argumentos que no fim se resumem a acreditar, pelo menos hoje, que o Natal que festejamos é autêntico.