Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

no hospital

O que é assim não poderá ser de outro modo é uma regra adequada à verdade, mas torna a vida aborrecida. A poesia tenta conciliar a possibilidade de as coisas se alterarem mantendo uma relação de harmonia, apenas se tendo que alterar a sua leitura. Um idoso sente-se confortável nas suas rotinas, quer as coisas do mesmo modo, aborrece-o pensar o futuro senão como um carnaval sem divindades salvíficas. Ele receia os tubos de alimentação parentérica e a algália e isto pode não ser o mais ameaçador. Quando começam a sussurrar à sua frente, percebe que lhe compete fingir não perceber que os resultados das análises pioraram, que o antibiótico não funciona, que a respiração assistida não pode durar sempre pois há que dar o lugar a outro. Em novo fora um hábil sofista capaz de conciliar modelos mentais discordantes sem os condicionar a serem outra coisa. Pensava no que era a sua vida e no que não era a sua vida; do que a sua vida era fazia que ela fosse outra e ainda outra sem deixar de ser o que efetivamente era. Distinguia entre uma liberdade que usava limitadamente e a virtualidade do presente onde ele aparecia a sorrir e era o seu próprio profeta e o seu próprio fantasma. Defendia: «Todas as situações merecem uma conclusão alternativa», mas não foi um altrabão. As pessoas estimavam-no, embora não seguissem os seus longos raciocínios; diziam preferir o risco de se enganarem ou de serem manipuladas por outro qualquer pois pensam que o que lhes é evidente é, em geral, desejável. Pelo contrário, ele insistia que tudo o que podia pensar era equiprovável pois o contexto, nunca sendo fiável, sujeita tudo a uma narrativa plausível – «É o argumento do sofista», dizia. Assim viveu procurando o valor estável das coisas. Não se dá ao luxo de formar expectativas na presente situação hospitalar. Quereria, como Asterix, que o céu não lhe caísse em cima, mas a situação parece-lhe inconclusiva, por isso se abstém de a pensar.