Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

novos formatos poéticos

Num tratado sobre as novas formas das árvores que critério deve prevalecer? O da sombra ou o da extensão da copa?, e, neste caso, privilegiamos as copas que se espraiam como as dos embondeiros ou as que se alteiam como ciprestes que parecem convictos de alguma coisa se passar lá na altitude? Porque quando dizemos sombra refundamos a questão nos humanos que nela se abrigam e nas aves que as conhecem pelo hálito e pelo abraço terno tão diferente do envolvimento no vento cuja muda loquacidade apenas nos faz ajeitar o chapéu. Os seres vivos começaram por todos terem as mesmas necessidades e configurarem-se a partir de uma plataforma de exigências que a vida faz ao meio, a qual, a não ser satisfeita, a matéria viva descomplexifica-se. Podemos dizer que os elementos perdem as virtudes gregárias, deixam de se pensar no sentido da consciência de estarem envolvidos num propósito o qual os obriga a delegarem a sua primitiva individualidade celular (ou de órgão, no nível acima) em sistemas de decisão abstratos com os quais apenas por medo cooperam. No que respeita às árvores, a sua organização vertical estabelece níveis, quase homólogos aos da filosofia, desde o maior arejamento de um corpo reticulado ou entrançado e ramificado, donde alguns conceitos chegam a soltar-se ao ar, e acabam por viajar apenas sustentados pela própria leveza relativa. Também, como na filosofia, existe um nível intermédio que agarra ao solo um mundo de coisas estudadas do alto: um tronco, uma zona de energia materializada para resistir, congregar e resistir às pragas de escaravelhos, às inundações, à escuridão, à maior parte dos cataclismos, mas a sua aparente robustez cega-nos para um chilrear de símbolos muito nítidos e coesos com os seus corações latejando e empurrando para cima um maná, por vezes seco e intragável. As melhores ideias perdem-se fora da escrita. São árvores desenraizadas, são versos longos que se soltam e recompõem, são vento que se perde no mar ou num céu sem nuvens. As novas formas das árvores servem as novas formas de poesia, não pela novidade pois se as modas convêm à poesia, às árvores são-lhes indiferentes, mas pela oposição a uma natureza que as trai: solos contaminados, atmosfera carregada de detritos químicos, chuvas inopinadas e poluídas. Não deveria a natureza proteger as árvores como as sociedades dos direitos dos animais os protegem dos seus donos? Não deveria a natureza imunizar o planeta das espécies daninhas?, sabotar-lhes os foguetões que carregam bombas e permitir aos que querem outra galáxia ultrapassarem a velocidade da luz? Porque tal como as árvores se retorcem e miniaturizam como bonsais, mas não conseguem germinar nos solos impermeabilizados da civilização ainda que com novas formas, também, para alguns poetas, a poesia se reduziu a uma interjeição onde coube uma estupefação enfim resolvida. Ou uma estupefação que enraizou e modificou a forma da árvore, talvez um poema simplificado, uma sintaxe simplificada, um novo vocabulário para dizer as coisas imensas que antes pareciam indeterminadas e difíceis de amar.