Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O ABSURDO E A TEORIA DO MUNDO  

Um velho sábio ensinou-me da poesia a externa fatalidade da sua lógica de lastros, aquilo que ascende, a que, sem exagerar, chamaríamos «complexo». Ensinou-me que palavras como «absurdo» e «caos» devem ser substituídas pela sucinta impotência da compreensão por onde a poesia navega. Aprendi o protagonista da compreensão ser uma ficção que se pode tornar maçadora. Projetamo-nos nos seus cristais caleidoscópicos, as suas raízes radiam pelo sujo que num banquete de sóis fenece e nós sempre pensando ter que ser assim, embora algo de nós sedimente numa vívida música. Refiro-me a algo da minha aprendizagem do português numa Lisboa adormecida – «absurdo» e «caos» são lapsos da mente, lugares que a linguagem ainda não visitou, onde apenas filósofos exercem um aborrecido deambular. Onde eu cheguei – ou alguém que, para me ler, tenha de me inventar, tenha que, como eu, passear em Lisboa com a minha dinastia de dúvidas e princesas encantadas num pacote que designaríamos «felicidade em progresso» – mas «progresso» sem resolver a questão do absurdo?, de tudo o que precede o sentido? A inscrição na mente de um manual de instruções orientado para a felicidade resulta na principal teoria do absurdo: o mundo relido de modo laxo e indulgente, adaptado a uma esperança batoteira de inspiração democrática. A transcrição social dos reflexos torna-se homóloga nas células, nos músculos, no próprio vento porque trocámos a cor dos nossos coeficientes de sobrevivência: em todo o mar, nos corais, nas alegorias conscientes que transformam o caos dos monossílabos na busca surda dos ritmos, todas as coisas confirmam quer a «felicidade em progresso» como uma tendência universal à plenitude, quer o «absurdo» como uma versão rasca do «complexo» que pulsa no poema, que pulsa na música, que tende nos fios emaranhados das épocas e se perde, já fora de visão, nas linhas que decifram o infinito e o dizem absurdo.