Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O CÉREBRO POUCO EXPLICA  

Como é o cérebro de um narval?, ou o de um político?, ou o de um Pégaso?, ou o de um dinossauro rex?, Quando nos apaixonamos por alguém, deveremos investigar as circunvoluções do seu cérebro, as do córtex frontal, em particular, que poderão estar a fazer planos traiçoeiros? Ou é irrelevante, no amor, esta aramagem cibernética que liga o cérebro ao comportamento individual efetivo, ao seu imprevisto, às derrapagens das incumbências de cada um em cada circunstância? A ideia de que todos os comportamentos ficariam explicados sem margem para complexos freudistas nem outras suposições enigmáticas falha para as decisões políticas embora se possa aplicar no amor. Não perdemos tempo a pensar no Pégaso, nos seus soberbos voos e nos dentes de ouro do político. Não percamos tempo com o cérebro uns dos outros a menos que precisemos de uma boa explicação para os seus atos limite ou desesperados. É para que servem as doenças – para justificar o que falha, e para que servem os seus curandeiros – para aliviar. A trepanação é um furo no crânio para libertar os maus espíritos que agitavam a pessoa. Já os egípcios diziam que o útero era o órgão das convulsões: quando se elevava ao cérebro e estrebuchava com ele. Mas porque rouba o político como um ladrão ou como um dinossauro rex? Porque precisa. No caso do dinossauro espanta-nos como um cérebro tão pequeno controlava tamanho corpo como se o corpo caçasse sem cérebro ou como um grande pianista toca sem pensar. O cérebro do Pégaso interessa-nos por ser insubstancial e pela sua associação a uma constelação, mas o do político poderá ser um caso-limite de uma analidade obstipada. Isso explica que roube? Tal como o do narval, nunca o vimos em funcionamento, mas gostaríamos que refreasse a avidez e não extorquisse do sistema mais do que o que lhe compete. Esperamos do cérebro da pessoa mais do que o cérebro explica: esperamos que saiba o que está certo, que proceda bem e que nunca mate ainda que precise. Isto é, ainda que o cérebro precise.