Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o certo e o errado num poema lírico

Como entraram as rãs no poema? Por qualidades poéticas ou místicas intrínsecas ou como figurantes no lago onde Vénus renasce? Não tomamos partido neste momento da escrita, apenas aguardamos com curiosidade o desenlace do poema enquanto o poeta ora come cerejas, ora enterra a cabeça num balde de alcatrão, ora pontapeia um ecrã que não transmitiu a sua imagem. Depois, embebeda-se num lodo noticioso pouco exaltante e acaba o dia enviando os próprios excrementos aos estadistas mais inocentes. Intervém. As rãs cantam contra um maquinismo que não se desenvolveu. A simplicidade dos seus sistemas sensoriais parece-nos errar, fazem que se dirijam aos pequenos símbolos e cantem. Cantem contra os deuses originários que subsistem nos lagos dos poetas líricos. As outras verdades passaram por fases homólogas da verdade do poema, mas o poema da rã ainda não saiu da fabulação mítica. Um dia a ciência explicará estes erros simples e os teólogos deixarão a sua antropocriptosofia a favor de uma registo minucioso dos mecanismos de viabilidade poética. Então, uma provisória transcendência surgirá fora da escala das verdades homólogas, antes suspensa num encantamento simples como os balões na festa da aldeia. Alguns incendiar-se-ão com o vento. As rãs dormem, mas não as melgas que aproveitam para picar os amantes que, seminus, se abraçavam no escuro. O poema cria um circuito de factoides que percorremos porque nos detivemos no sítio errado. «Sítio errado» é onde está o que encontramos procurando pouco. Encontramos as rãs porque coaxam, a Vénus porque é bela e ocupa o centro da cena, encontramos a verdade porque assim a declaramos quando nos convém, mas o poema só o encontramos procurando muito, num sítio certo. «Sítio certo» é o lugar de cada coisa no poema. «Como entram as rãs no poema?» é uma questão errada.