Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o corpo-mente

Um corpo grande é uma vantagem em muitos domínios. Pensamos logo em vantagens bélicas mais do que nas vantagens para a saúde, mas uma grande estatura representa um maior volume por onde distribuir as infeções, também uma maior visibilidade quando naufragamos e esperamos, no meio do oceano, que alguém apareça e nos salve ou, ainda, quando saltamos em paraquedas, ajuda a que o vento não nos arraste para rumos obscenos. Só temos indícios ténues sobre as nossas pré-programações, mas haverá uma preferência instintiva por um corpo grande tal como preferimos os olhos bem desenhados e coloridos com graça, uma boca carnuda, as orelhas tenras, não excessivamente espiraladas? Ignoramos, mas acreditamos que a nossa inteligência gosta de um corpo grande com os circuitos de comando bem nítidos e operacionais e regulados para respeitar as hierarquias que são, também, condicionadas pela estatura. A inteligência aprecia a beleza e esta quer espetáculo. Quer jogo e ganhar ao jogo, quer correr pelos campos chutando uma bola e as pernas grandes ajudam a rapidez – a inteligência aprecia comportamentos com um alvo nítido como uma baliza para que seja fácil argumentar a sua verdade e a sua correção, mas a inteligência poética precisa de uma maior latitude de significação no sentido de autopsiar as palavras recusadas por penarem contra a liberdade de expressão e precisa de fazer delas matéria poética. A inteligência poética surde das assimetrias e da baixa estatura na morfologia dos poetas. Ainda que o seu corpo seja visivelmente grande e apolíneo, quando escreve, encolhe-o à escala do bater de asas da borboleta e das forças surdas que relacionam o vento e os vulcões com o nosso mecanismo mental de polinização e a nossa necessidade de recolhimento numa ilha vulcânica onde o «autêntico» de nós desaparece. Na verdade, não podemos reduzir a palavra ao seu étimo nem extorquir-lhe todas as torções e artifícios, mesmo porque não nos retratámos em Babel, assim, ignoramos como seriam as palavras originais e como elas encaixavam nos nossos minúsculos corpos. Mas antes da poesia não éramos afónicos, falávamos com lanças e setas e as mulheres escondiam-se porque os maiores perigos estavam implícitos e as palavras não eram compromissos. Eram golpes poéticos – essenciais numa perspetiva cerebral. Não podemos defender que o cérebro contém a civilização, antes que esta o molda e ao corpo. A estatura, vai atrás. E crescemos porque as palavras se tornaram explícitas e porque a vulnerabilidade do corpo já não depende do tamanho: as ameaças bombistas tal como as grandes catástrofes geológicas atingem todas as escalas por igual logo que saiam da sua carapaça antinuclear e, quanto às infeções, basta ajustar a dose do antibiótico.