Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o demagogo e os outros

Um demagogo é alguém que é assim chamado pelos que se dizem não-demagogos. Atualmente é impossível fazer uma teoria sociológica da demagogia separada das estratégias de alcançar o poder, tal como é impossível destrinçar, numa boa campanha eleitoral, quando uma acalorada atenção às preferências da maioria passa à descarada mentira sabuja. Não se trata de troçar do eleitoralismo, mas é impossível ganhar umas eleições defendendo ideias autênticas, por isso os políticos se tornaram grandes especialistas em felicidade coletiva. Há uma teoria da mente que prediz alguma consistência entre o que dissemos, o que dizemos hoje e o diremos amanhã, mas há exceções e a ação não segue o que dizemos. Tudo o que um político demagogo faz visa apenas afirmar o seu poder. Cumpre se lhe calha, falta se lhe convém; desmente-se, reinventa-se. Na sua forma de dizer produz as distorções que o apresentam único e urgente. Insiste que as suas ideias são ovos-de-Colombo, que é simples muralhar um país, expulsar toda a escumalha estrangeira (num país onde toda a população descende de emigrantes recentes), alimentar os seus próprios sapateiros, produzir o seu próprio champanhe francês pois quem constrói bombas nucleares, constrói bicicletas ou perfumes tal como quem planta morangos colhe quivis ou mangas. Há muitos modos de pôr a questão dos interesses nacionais: 1) modo belicista: os meus interesses nacionais são mais interessantes do que os teus e devem prevalecer: a) seja pela persuasão que submete e domina, b) seja pela menção explícita da força (ameaça), ou c) seja por um ato militar (agressão); 2) modo cooperante: os nossos interesses nacionais convergem com vantagens recíprocas e a) ambos acreditamos nos próprios argumentos, mas reconhecemos alguma razoabilidade nos outros, b) uma cooperação vantajosa leva a melhor e mais vantajosa cooperação, c) a força é uma não-cooperação incontrolável; 3) modo imperialista: o meu poder impõe um domínio sobre quaisquer veleidades nacionais: a) pois o imperialismo autopromove-se e vence, b) apaga pela força ou pelo medo a resistência ao imperialismo e instala-se, c) a própria força instalada demove qualquer resistência ao imperialismo, força a submissão, anula a identidade dominada. Um demagogo aprendeu isto pela rama porque, sobretudo, acredita nas suas intuições, numa sabedoria rápida e superficial porque é assim a realidade e a mente das pessoas não adere a coisas lentas e profundas. Como a felicidade falha (os eleitores aceitam isto), é necessário alimentar inimigos íntimos, descobri-los entre os vizinhos, expropriá-los, definir «interesse nacional» de forma a excluí-los ou, até, a justificar o seu extermínio. Um demagogo salienta a inveja; a inveja une, nutre, desde que os demónios e outros agentes maldosos liguem os inimigos às vítimas. É fácil alimentar paranoias. Um demagogo é um especialista na felicidade, por isso, a apresenta como conspiração: é preciso ser paranoico para ser feliz. Mas, atenção: um demagogo aparece onde os outros falharam.