Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o desespero quando ignoramos a que é devido

Poucas pessoas dedicam algum tempo a pensar na felicidade. Em geral, usa-se o conceito de uma forma abusiva quando se pretende justificar uma grande decisão ou quando se pensa nos filhos. Procura-se a sua felicidade, mas espera-se ganhar alguma coisa com ela, colá-la à nossa mantendo um modelo uterino em que a relação de dependência se desloca subtilmente vivendo o progenitor à pala do filho. Podemos observar o mesmo noutros mamíferos, baleias, porcos, morsas e até nalguns gibões, mas nunca em amêijoas, nem nos perus, nas garoupas ou nas jiboias. Talvez seja precisa alguma inteligência para se manter dependente de uma mãe ou de um pai, desenvolver uma inteligência preparada longamente para falhar, para tirar conclusões distorcidas, avessas ao risco e à própria natureza das coisas. Um pássaro não pode manter um filho dependente porque não consegue voar com ele às costas, mas uma mãe humana pode tê-lo por perto toda a vida, até permitir-lhe inventar alguns esquemas que aparentam rebelião e, no entanto tem-no às cavalitas, já maior que ela, obeso, pateta. A humanidade tem criado muitos problemas biológicos inéditos e resolve-os com psicoterapias que são usos abusivos das palavras. Apelam a uma intencionalidade que não lhes pertence nem ao interlocutor, mas o que todas as psicoterapias propagandeiam é uma esperança condicionada a uma teoria da saúde mais ou menos pouco persuasiva. Subsistem porque muitas pessoas pensaram na felicidade como uma situação que lhes pertenceria por direito político. Recuando, encontramos alguém que nos prometeu a felicidade, sem reticências, sem hesitações, mera consequência de praticar as virtudes e cumprir as regras de bom comportamento quanto aos xixis e cocós. Hoje, julgam ter falhado e culpam-se. Não sabem do quê, nem aonde, nem quando. Outros pensam que alguém não lhe dá o devido (as amantes que os criticam, o patrão que os critica e não lhes reconhece valor, a família que os critica, não lhes reconhece valor e os iludiu com vanidades, o estado que os criticam, não lhes reconhece valor e os desiludiu brutalmente das suas vanidades castigando-os com impostos insuportáveis). Chegam a desesperar. Querem uma resposta concreta, precisa – o quê?, aonde?, quando? Apontam-lhes o pai, a mãe, mas não o polícia, nem o fiscal de impostos, nem o ministro da economia, nem os psicopatas que os empurraram no metropolitano. Pois os profissionais da entreajuda defendem que tanto a felicidade como a ausência dela se devem às mesmas causas da mesma forma que a digestão de um bife ou de um caracol usam os mesmos dispositivos. Ninguém acredita em nada, apenas que é preciso fazer alguma coisa para não desesperar.