Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o dinheiro

O dinheiro dá-nos a volta à cabeça. E, contudo, abstratamente, é um importante vetor civilizacional e, em alguns casos, também amoroso. É natural que cada um queira lucrar o mais que puder com uma situação aplicando nela o menor esforço e, portanto não nos devemos precipitar com os juízos morais. É certo que não há milagres e o que se ganha além do aumento da riqueza per capita é roubado a alguém que ficou sem o seu bife, ou que dorme sem cobertor, ou mesmo ao relento. Em pequenos recebíamos moedas com um variável valor simbólico nem sempre proporcional ao seu tamanho. Percebemos, desde cedo, este lado convencional do dinheiro, tão fácil de aldrabar. Todos os estratagemas que aprendemos na escola visam sacar algo do sistema sem atenção às próprias necessidades do sistema as quais, se violentadas, poderão ameaçar todo o sistema o que nos inclui. Felizmente não temos poder para uma malignidade planetária. Ao nível dos pequenos sistemas já a nossa relação com o dinheiro poderá ter um impacto e este impacto depende da nossa atitude em relação ao dinheiro e a nossa atitude em relação do dinheiro depende da nossa atitude em relação ao que fazer com a vida: 1) passar a vida a trabalhar em troca de um salário mais ou menos compatível com a sobrevivência, 2) passar a vida a trabalhar furiosamente com a convicção de ser a única forma de aceder à fortuna, à virtude e ao paraíso, 3) trabalhar furiosamente para acumular dinheiro e reduzir os gastos ao mínimo, 4) passar a vida a aproveitar-se dos distraídos ou dos que se enganam nos trocos, ou dos que acreditam na bondade e precisam de parecer bondosos, ou dos que não conseguem proteger dos pobres a riqueza que possuem, 5) ou tentar parecer rico, vivendo como os ricos à espera que, osmoticamente, algum dinheiro lhes chegue. Mas, 6) há pessoas que sobrevivem com muito pouco dinheiro e sem esperança de alguma vez o possuir; destas algumas são felizes porque têm outros interesses, outras, infelizes porque não os têm; e, 7) há pessoas que sobrevivem com muito pouco dinheiro por o recusarem e recusam-no porque têm necessariamente outros valores. Mas para a maior parte das pessoas, possuam-no ou não, o dinheiro preocupa-las, parece-lhes denso e imaterial, existir e desaparecer como um deus e quando analisamos um extrato com números que crescem e encolhem temos de confiar como noutras forças da natureza, confiar que o dinheiro não se desvaloriza como a gravidade não diminui, que não nos seja confiscado por um estado gatuno, ou roubado por um mistério cibernético. Tranquiliza-nos quando nos sorri ao pagarmos suficientemente o jantar ou quando o vemos aparecer no ordenado, estimulante como uma primavera.