Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o fado Wilson

Há ocasiões em que desmantelamos o outro como método de sedução. Funciona bem – claro que requer uma atitude favorável do parceiro. É preciso ter cuidado com as palavras e nunca perder o propósito que é uma aceitação incondicional do jogo. A expectativa seja do que for, até de um orgasmo, é mais entusiasmante do que a própria fruição. Por exemplo, de uma canção de amor. Estas são escritas por grandes cínicos que se amam enquanto objetos de um amor descontrolado e, de súbito, quando a situação vira, usam a música como encantadores de serpentes à espera de uma gorjeta dos turistas do destino. Quem dará o braço a torcer ou quem rirá por último, ou o próprio comprazimento na desventura, marcam uma cadência ginecológica bamboleando pelas avenidas como se tudo fosse substituível por uma boneca insuflável como medida operatória reversa. É natural que esta expressão seja incompreensível pois ela tentou aludir a um além-ternura que apenas os verdadeiros amantes alguma vez sentiram, os que desmancharam a sua pomposa vaidade e constroem a estatuária do outro num jubiloso silêncio: «Penetra-me o hino de uma sombra íntima como o ar da respiração – cada minuto juntos é uma viagem entre luas exclusivas». São múltiplas as respostas possíveis, mas nem sempre encontram alguém a postos. O fado é escrito num desses momentos de ecos distorcidos em que a amargura parece repetir os nossos pensamentos mais pessimistas, mas o que subjaz ao fado é uma descomunal esperança, uma quase certeza de que algo acontecerá no sentido de corrigir a desventura que é, meramente, um tema com que apelamos à compaixão. O último desiderato da vida é a duplicação de um aglomerado de traumas sobre a própria individualidade, mesmo a de seres simples; qualquer carneiro, qualquer alforreca, qualquer bactéria o sabe (ao seu modo). O conluio que reúne as células de um pluricelular, qualquer fadista o sabe, é a viabilização de uma segunda versão de nós próprios; só marginalmente pensamos em melhorá-la (como o encantador de serpentes). Por isso, o fado lastima os processos biológicos interrompidos (não só o coito, até uma revolução), enquanto muitas das outras canções de amor se fixam na exultação preliminar do desejo a qual pode não passar de um recíproco onanismo (sem desprimor).