Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o filantropo

«Queridos amigos». Começava assim a carta que queria dirigir à humanidade. Ainda não tinha claro o que queria dizer, como se estivesse demasiado próximo do palco da criação, sem recuo para ver a cadeia de causas encadearem-se, as nações surgirem como num jogo de xadrez, umas dominando outras, perseguindo o rei, os bispos, a cavalaria e os peões desaparecendo primeiro. É difícil começar uma carta sem explicitar o assunto, ou esperando que a própria redação da carta crie o assunto, mas não terá sido assim escrito o destino da humanidade? Entretanto, como responder à humanidade sentada à sua frente, olhos fixados nele, como se assistissem em direto à reencarnação de um deus esperado há muito? Corresponder à humanidade pode ser uma forma perigosa de iniciar um pensamento pois que, ainda que a sintamos amiga, há muitos entendimentos de amizade e, para muitos, «amizade» é simplesmente um subgrupo de humanos disponíveis para serem ludibriados, ou (outra definição) os que levam com as nossas lamentações, ou com as nossas versões distorcidas, ou com os nossos planos de governação. Uma conceptualização funcional envolve uma declaração de intenções associada a um pacto de não agressão semelhante ao matrimónio. Mas, para ele, todas cabem no grupo dos «queridos amigos» no sentido em que não tinha nenhuma razão especial para excluir alguém, embora espere que assassinos, genocidas, grandes psicopatas criminosos e desalmados não se acerquem desta mensagem amistosa à humanidade. Perante a dificuldade num tema, recua-se à origem do problema, à situação anterior à sua formulação como problema: «Tivemos 90 000 gerações de humanos – conseguiremos retomar a fraternidade universal?». Não é que deseje verdadeiramente essa época, a humanidade toda da mesma cor, aborrecendo-se com os assuntos de família, como num extenso tratado sobre a redundância, falando dos que morreram e dos javalis assados e de como a agricultura poderá revolucionar a humanidade ao que outros respondem que acreditam mais no nomadismo e no pastoreio, mas a questão de fundo, escreveu ainda, é se conseguiremos tratar a irracionalidade dos inimigos com a mesma tolerância com que tratamos a nossa. Julgava ter conseguido evitar as falácias linguistas quando, de repente, se apercebe estar no meio de uma. Conseguiria melhor definição de «racionalidade» do que «a lógica aplicada à defesa do interesse próprio», subsumindo-se a coincidência deste com o interesse coletivo; definindo este «interesse coletivo» como «a lógica aplicada à gestão do interesse público», subsumindo-se este como a soma algébrica dos interesses individuais mais elevados, entendendo-se «elevado» como «o interesse da humanidade considerado pelo seu fim último» e este como sendo um resíduo que a linguagem não é capaz de comunicar, mas está presente na vida e na morte desde o primeiro sapiens.