Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o jogo do sentido

As crianças não brincam, investigam e teorizam a partir de um estado zero confuso porque muita coisa que existe desde o princípio da sua compreensão não tem uma forma, nem uma dimensão, nem um comportamento, nem sequer uma existência estabilizada. Nós pensamos com o ser e dizemos impossível pensar com o não-ser, mas com o não-ser devaneamos tão longe que, por vezes, nos surpreende que ele não chegue a existir. Reconhecemos, então que estamos a devanear, mas, por vezes, algo falha e tudo se confunde. Tal como nas crianças, da geleia da consciência extrai-se uma matéria fantasma com as ideias brancas de Platão. De resto, a melhor forma de compreender Parménides e Platão é com as educadoras infantis, muito jovens e inexperientes, somente um pouco mais avançadas que as crianças. Retiram de um mundo demasiado completo as porções mais emaranhadas e dizem: «Temos de poupar as crianças, falar como se o mundo estivesse acabado». Não imaginam como induzem nas crianças uma ansiedade que se desdobra em várias linhas consoante as conclusões a que a criança chegou: umas obcecam-se com a indeterminação de lances que arrumam os factos tempestuosamente; o seu pensamento usa uma magia que falha e adoece sem se deixar vencer; outras simplesmente temem e detém-se num estado anterior ao choro, enquanto outras ainda tremem e arfam como se os pulmões precisassem de litros de uma atmosfera submarina semelhante à do útero. Seria preferível deixar às crianças as suas próprias conclusões: à sua maneira, a criança compreenderá a natureza quântica do seu pequeno mundo; pode dispensar as obsoletas fábulas de La Fontaine e chegar a interessantes conclusões geopolíticas e sobre a vacuidade moral do autoritarismo dos educadores em geral. As crianças não brincam no sentido em que os filósofos filosofam; elas investigam cada ser isolando-o do seu contexto e da sua existência concreta; cada ser, lambido, chupado, trincado, tocado, chocalhado funda uma teoria do ser de cada coisa, e do sentido de cada coisa, e do precário sentido de si própria questionando o sentido, embora sabendo-se forçada a aceitar o «sentido» sem verdadeiramente achar necessária a transcendência do sentido.