Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o mentiroso e o pantomineiro

O que existe de reprovável num mentiroso compulsivo? É condenável usar a palavra para enfeitar a própria pessoa com feitos inauditos? É assim tão pior do que usar roupas e ideias extravagantes para o mesmo efeito? Poderíamos continuar estas comparações entre atitudes sociais: se mentir é pior do que roubar ou que delirar ou que silenciar – sim, o silêncio é especialmente intolerável pois é o que mais afeta a rodagem social – afasta, cada um entregue ao seu equívoco. Por outro lado, será que respeitamos mais a verdade do que um mentiroso compulsivo? Se assim fosse, não pararíamos de a proclamar aos quatro ventos, defendê-la-íamos como se dela dependesse uma melhor humanidade. Mas a verdade, frequentemente, apresenta-se tranquila e sibilina, condensada numa frase pequena e cautelosa – como se fosse uma mentira dita por alguém tímido, incapaz de a argumentar. Esperamos da verdade a redundância como de um halterofilista esperamos um corpo muscularmente obsceno. Não toleramos uma verdade precária, mal talhada e incoerente. Que não se ajuste às outras partes da realidade como num puzzle, mas não serão todas as peças do puzzle graus de verdade de um todo tosco e desengrenado, ainda assim uma totalidade? Da mesma forma, as histórias do mentiroso, têm apenas a realidade da sua imaginação, desengrenada e pré-realista. Poderemos tomá-las como peças linguísticas coerentes que o mentiroso acha que poderiam competir com a realidade? A sua mentira constrói, não corresponde, mas pode ser internamente coerente, assim constituir-se comunicacionalmente, ser acreditada, retransmitida e atuar mais eficazmente do que a realidade que pode ser trivial, aborrecida, redundante. O mentiroso oferece a sua historieta colorida e reforçada com feitos articulados noutros feitos notáveis de modo a produzir um heroísmo pacóvio. Ele não defende a verdade da sua história, deixa-a facultativa, à solta, e espera que, persuadindo ela se sustenha, que justifique a admiração que solicita, que não aborreça. O mentiroso nada mais quer em troca, nunca defenderia que «a verdade é o que é útil» como um vulgar pantomineiro; nunca defenderia que a sua história é verdadeira dentro do domínio em que é falsa desde que retiremos desse domínio as partes que a tornam falsa. O que há de condenável num mentiroso compulsivo é o apragmatismo de produzir mentiras inúteis.