Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O NARCISISMO ESCANCARADO DE UM POETA HISTRIÓNICO  

Muitos livros de poesia não tiram todas as consequências de uma metáfora. Elas surgem por uma necessidade do texto, diz o poeta, mas sabemos que, sobretudo, ele quer encantar (quer-se encantar, escarafuncha a página como um melro à procura da minhoca, mas a minhoca escapa-se enquanto na metáfora surdem cavaleiros à procura da glória e do amor). As necessidades do texto são como as outras coisas a que a humanidade dá importância no seu quotidiano em família. Quando duas coisas se aproximam e eram, antes, estranhas uma à outra, uma, bela e opaca (os poetas gostam de enigmas), a outra, bela e transparente (eles enterram os rios em paisagens idílicas e espreitam os desenhos que a água escava), os leitores têm que as misturar como se inventassem uma doçaria. Mas nem todos os livros de poesia praticam esta navegação pela ternura. Muitos, da sua correta monotonia, levantam-se numa convulsão e cospem astros tirados do nada e dirigidos ao nada (tudo vem do nada e tudo morre e é nada, diz o poema sem grande originalidade). Pretendem desnecessárias as metáforas dando às palavras um desempenho implausível, mas o que diríamos de um poema que nos caísse em cima como a Teogonia a Hesíodo? Não estamos preparados para o caos primitivo nem saberíamos organizá-lo. Nem nunca deixaríamos que um defensor de uma nova ordem como Zeus, destronasse a ordem do tempo, nem que constituísse uma sociedade de advogados para gerir o paraíso, mas foram estas inflexões na previsibilidade dos comportamentos que tornaram necessárias as metáforas, não pelo seu colorido tropical nem pelas sonoridades de auditório clandestino, mas para lembrar o nosso papel na reconstrução do poema. Podemos achar que a metáfora redundou pindérica, mas também podemos achar que viola os mecanismos do pensamento e dizemos louco o poeta – simplesmente.