Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O NATAL ANARQUISTA  

Não é ocasião para discutir a existência de Deus. Festeja-se o Cristo histórico, enaltece-se a sua mensagem humanista pujante – assim interpretada por S. Paulo e como tal universalizada. Foi com Paulo que o cristianismo, de uma seita judaica, se redimensionou como um movimento que irradia da figura de Jesus, dos seus feitos e dos dos seus apóstolos. Mesmo não considerando os Evangelhos, é inquestionável a sua existência (referenciada noutros textos). Sabemo-lo batizado pelo seu primo João aos trinta anos e, logo depois, ter iniciado um confronto com o judaísmo vigente que levou à sua crucificação três anos depois, quando era Pôncio Pilatos o governador romano. Os detalhes da sua vida e da sua pregação estão nos Evangelhos que não têm a fiabilidade de documentos históricos. Para muitos Cristo era um inspirado profeta, para outros, um curandeiro surpreendente; também um refinado filósofo e um retórico; outros tomaram-no como enviado de Deus, o Messias da tradição judaica, e foram muitos os que o seguiram porque acreditaram que era filho de Deus. Assim se anunciou e por sua influência se reconfigurou a imagem do Deus israelita do Antigo Testamento, desproporcionalmente severo e sorumbático. A cena natalícia do presépio não é um facto histórico documentado, mas é plausível o nascimento de Cristo num lugar como um estábulo, tal como a estrela que o anunciou e a própria virgindade da sua mãe que já tinha o precedente da mãe de Buda. Bem entendido, a aceitação de um facto como plausível não implica aceitar autêntica a totalidade da narrativa. Embora, se morreu crucificado com algum aparato, supomos que a sua insubordinação à ordem farisaica constituiu um movimento significativo. Embora não hajam detalhes além das descrições dos evangelhos, só por ser significativa a ação de Jesus podemos compreender a confusão que gerou e que acabou na sua condenação à morte. Portanto, o Cristo histórico iniciou um movimento cultural de feição humanista com tal influência civilizacional que, à semelhança dos deuses gregos e romanos, se não era divino de nascimento mereceu a divinização num formato por ele escolhido. É a situação atual – até os ateus se reúnem e festejam a família e é a altura do ano em que custa mais ser anarquista. As coisas parecem ocupar o seu devido lugar como se o novo ano tivesse todas as condições para ser melhor.