Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O NOME DOS TUFÕES   

Nunca damos ao vento a merecida importância. Dizemos «suão» ou «nortada» ou que vem do mar e é fresco, mas ignoramos o que transporta, o que o movimenta, as tempestades que causa, a que se destina. Respiramo-lo com gosto se é maresia ou uma brisa no bosque ou com desagrado se está contaminado e poluído, mas nunca deixamos de o inspirar. Não há passado nessa respiração, o seu presente é uma inconsciente orquestra dentro do corpo e pensamos em tudo menos nesta porção de atmosfera que ingerimos pulmonarmente. Pensamos, antes, nos nossos problemas atuais com a Europa esquecendo o que andámos a fazer pelo mundo nos últimos quinhentos anos. É uma questão difícil de pensar, de assumir as pesadas responsabilidades pelas paisagens que reconfigurámos um pouco à nossa maneira embora, em cada caso, houvessem maiores ou menores modulações pelas forças autóctones. Não apenas as populações, mas algumas das condições ambientais da ocupação persistem ainda hoje com as marcas da Europa, enquanto do vento que soprava as caravelas e trazia as chuvas que fertilizavam os campos não guardamos qualquer memória. Dizemos «Provavelmente soprava», mas percebemo-lo como uma mera força, sem identificarmos as deslocações de ar para o norte ou para o sul ou de uma qualquer direção para outra, ou ascendente ou descendente, ao sabor de simples diferenciais de pressão atmosférica. Da mesma forma, apenas valorizamos as deslocações dos europeus pelo mundo porque foram mais recentes e deixaram consequências políticas, mas deslocações de populações sempre ocorreram, sempre misturando-se mais ou menos com as populações autóctones, sempre exercendo um domínio mais ou menos musculado sobre elas e intercambiando elementos das suas culturas. Apenas os ciclones e os tufões são nomeados de uma forma palerma como se tratassem de animais de estimação. Contamos com os estragos e a devastação que produziram, mas dos grandes invasores como Alexandre, ou Júlio César, ou Gengis Khan, ou o Infante D. Henrique, elogiamos os seus feitos e tomamo-los como exemplos de uma genialidade que esperamos que tenha chegado até nós como o vento que despolui as cidades, que agita os mares, que varre as florestas e transporta o pólen. O vento que, simplesmente, nos despenteia e nos leva o chapéu pertence à paisagem como uma árvore centenária da qual dizemos apenas «É grande» e continuamos.