Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o organismo escondido

Conseguiremos ainda amar imaginando o corpo do outro como uma máquina muito rápida? Observamo-lo numa contexto propício – agora trinca um morango, depois, chupa-o deleitado e mastiga-o saborosamente. Imaginamos a dentição triturá-lo (pois mastiga de boca fechada), depois imaginamos o morango escoar-se pelo esófago abaixo e perder-se num inimaginável trajeto sacrificial em virtude do qual vai deixando de ser morango e se torna corpo – e dejeto, o remanescente. Portanto, seguimos o gesto com o morango desde a sua configuração manifesta até se perder num obsceno deixar de ser que o decompôs. Todas as essências (a do morango) se decompõem noutras essências mais simples, estas noutras e, contudo, eram conceitos bem explícitos a um certo nível de descrição. Olhando um corpo assim, com um olhar de raios X que o transparenta, conseguiremos ainda admirá-lo?, os seios, por exemplo, pensando-os como meros órgãos da amamentação, ou um torso apolíneo, se pensarmos os músculos como alavancas que operam o movimento do corpo, incluindo os músculos das nádegas que se bamboleiam provocantemente? Se nos surgem como dispositivos do corpo, cruamente, somos incapazes de os apreciar como peças do mecanismo da sedução, a sua anterior sensualidade já não joga com a nossa distraída libido. De repente, tudo fica conspurcado e não percebemos porque dizíamos o amor ser um assunto transcendente à vida biológica se é um assunto entre corpos e os corpos são aglomerados de órgãos que subservem funções parciais. A sensualidade do outro é uma mera propriedade de um conjunto que a nossa cabeça constitui com o propósito de se excitar. Por vezes, pelo contrário, conseguimos apaixonar-nos por um detalhe, o gesto de se pentear – ou de se despentear, distraída, o sorriso atrapalhado quando se enganou ao pretender dirigir um piropo, a expressão verbal pretensiosa ao apresentar-se como rebelde. Quando damos tal valor ao que é erro ou imperfeição já estamos apaixonadamente à procura de uma justificação para amar. A questão é se com uma visão sensível às ressonâncias magnéticas dos tecidos e dos órgãos do outro, isto é, se conhecendo-o minuciosamente em cada momento, se o amaríamos mais ou, pelo menos, se comunicaríamos melhor. O que aconteceria, por exemplo, se ele nos dissesse «Estou excitado», mas não observássemos uma correspondente descarga nos neurónios bulbares que comandam essa eventual excitação? Duvidaríamos da sua sinceridade. Ou se pretendêssemos elogiar o seu virtuosismos verbal («Sumptuoso»), mas ele não observasse em nós qualquer reação de alerta? Seria ela a duvidar de nós. São exemplos de novos problemas que se levantam quando, em vez de observar o outro que desejamos como objeto sexual, deixamos a nossa simpatia resvalar para a mecânica do seu organismo.