Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o pão do povo

Keops, Kefren e Mikerinos não eram tolos nem alimentavam grandes ilusões quanto ao que a morte lhes reservava. As suas descomunais pirâmides foram, sobretudo, formatos de governação poderosos que é tudo o que compete a um estadista: tirar de um lado e colocar no outro, sejam as pedras da pirâmide, seja o dinheiro dos impostos dos ricos deslocado para os que carregaram as pedras, seja deslocar o terror de uma ordem natural mortífera que permite a doença, a fome, a morte para um objeto de adoração que aplaque a doença, resolva a fome e que apresente uma esperança de continuidade além da morte. Que mais se pode pedir a um estadista do que proteção contra as ameaças à sobrevivência? Keops, Kefren e Mikerinos compreenderam que a divinização do estadista é a solução governativa mais estável pois que, face à doença, à fome e à morte, que mais quer o homem do que soluções estáveis? Os ricos pagam a comida dos pobres que constroem as tumbas dos estadistas. A tumba – um lugar para a morte – é o lugar para a arte e a arte medeia a relação entre os ricos e os pobres centrada na tumba do estadista. Visitando o mausoléu de Lenine na Praça Vermelha percebe-se a mesma receita governativa dos faraós embora a peça arquitectónica seja de gosto duvidoso e os seus alicerces tenham cedido ao peso do mármore o que não sucedeu às pirâmides, mas a questão levantada pelas novas tecnologias de mumificação refere, não à estetização da morte que é transcultural e se confunde com o próprio surgimento da arte, mas com a politização da morte: deve o estadista purgar o sistema enviando para a doença, para a fome, para a morte os seus reais ou imaginados opositores? A Sibéria foi um Auschvitz intolerável, dizemos nós a bordo da democracia, mas estaremos a aproveitar bem as vantagens sobre o regime de Keops, de Kefren e de Mikerinos ou as obras públicas egípcias são mais defensáveis do que as autoestradas, hospitais, aeroportos e estádios de futebol atuais? Parece estar em causa menos um modelo de governação, mas, sobretudo, o critério político de utilidade para o sistema e quanto esta utilidade deva ser definida em função dos cidadãos, como no tempo de Keops, Kefren e Mikerinos, ou no interesse de liberdades abstratas que os cidadãos tendem a usar pouco e mal embora as tomem como critérios de mérito governamental. Para que tudo isto valha a pena é preciso que os cidadãos compreendam.