Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o passado precisa e não precisa de ser justificado

A um certo momento temos necessidade de dar explicações sobre a própria existência, isto é, de a formular com uma lógica que nem sempre existiu de modo a retirar algumas conclusões (não que a morte tenha de parecer conclusiva, mas não é um simples fechar a porta e não voltar a aparecer). A deriva perigosa é querer justificar a existência por um projeto a realizar ou, legitimá-la por critérios externos. Em qualquer desses casos saímos do âmbito do direito político à vida e concluímos por um poder executivo de eliminar existências fora destes critérios de mérito, mas não sabemos a quem o reservar. Não ao estado, seguramente. Mas um filósofo ou um poeta não sabem concluir, não sabem concluir no plano prático, não sabem concluir como um fisioterapeuta ou um banqueiro, isto é, produzir um cenário de esperança plausível e encerrá-lo. Apenas a beleza da flor lhes interessa, nada do que atrai a abelha que é uma ordem do mundo minúscula, lhes interessa. Passam horas a elaborar sobre o tamanho da caligrafia, sobre a fluência com que se deposita no papel, a respetiva aspereza, a absorção da tinta. Comparam a diferença entre um poema escrito no computador e outro rabiscado na nota de despesa do almoço a uma cena amorosa num bosque ou no conforto doméstico – dizem ser mais que uma questão de estilo. Estas questões que alimentam as conversas ligadas à existência não precisam de justificação. No dia-a-dia, diluem-se numa irracionalidade distraída, parecem distantes e insignificantes, por isso estranhamos quando nos­ afetam – quando do fundo do corpo o rugido e a densidade de uma tempestade assomam e não nos sossega o palreio do papagaio racional. Pensamos a nossa vida como um aglomerado de minúsculas sensações e dizemos: «Passaram» de decisões descompenetradas e dizemos: «Passaram» de altos e baixos de uma energia mais ou menos risonha e dizemos: «Passaram» dos pequenos detalhes do erro. Só pensamos a vida a partir do passado, mas não o dizemos morto, dizemo-lo «passado» o que pode significar «inexplicado» e, portanto, pode significar «presente» no sentido em que não foi esquecido. Pensamos que o que hoje é assim talvez o tenha sido sempre. Talvez até tenhamos hoje mais presente o passado, o seu grotesco encanto que evocamos com superioridade (porque estamos vivos enquanto as pessoas do passado, apenas uma minoria vive nas suas obras, nas suas pinturas, nos seus textos, nas cidades que fizeram construir e a que deram o seu nome, mas já não vivem as suas vidas). Manipulamos o passado assim, como prestidigitadores fazendo as justificações aparecerem.