Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o pensamento

Podemos continuar a pensar cada vez mais coisas e a tratar o impossível como pensável pois é evidente que, mesmo sem chegarmos a uma conclusão estável sobre as coisas que dizemos fundamentais para o pensamento pensar, os resultados práticos são surpreendentes. Pôr satélites espiões em órbita ou chegar com eles a marte, decifrar uma língua pré-histórica, ou a imunidade das doenças, ou o âmago da hereditariedade, ou provocar uma cascata de prazer insuportável, corresponde ao triunfo do pensamento. Triunfo do planeamento da ação, triunfo de uma logística do fazer sempre melhor, sobretudo, triunfo inicial de uma intuição de ordem. Depois, já agora, tentamos ir mais longe, e perguntar como se fundamenta a beleza que vimos numa flor ou na pintura de uma flor ou na alma de um romance ou como justificamos que ajudar é melhor que matar, que compreender e explicar é melhor que insultar e expulsar ou que não destruir a natureza é melhor do que ter uma fábrica fumegante e ser muito rico. É verdade que se fazem coisas impensáveis e que se prometem utopias em várias modalidades, mas ainda não decidimos se Deus existe, se é uno ou múltiplo, nem em que versão o devemos adorar, nem sequer há consenso sobre uma moral religiosa com se os deuses quisessem de nós coisas diferentes como nós queremos que as árvores cresçam diretas à luz, mas que resistam ao vento, que se contorçam, mas não tombem. Porque o pensamento não põe condições preliminares; aonde chegue, inflama-se, anima-se, confirma o que pensou – só no final põe condições. Raramente tem de se provar verdadeiro. É sempre de si que o homem fala e é sobre si que o homem não sabe falar.