Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O PODER TOTAL

Sentiríamos mais o ócio não fossem as explorações em mundos utópicos onde nunca estamos suficientemente preparados: a vestimenta a usar (já não os camuflados e os negros dos heróis atuais, mas cores auto-adaptadas às condições espaciais), os capacetes com acessórios de neuromaximização incluídos, as botas agilizadoras variavelmente distantes dos nossos passos (os passos auto-descontrolados da aventura) – «Quem serei eu?» (sobretudo uma alma aberta à perfeição). Escolho-me para o prazer num mundo virtual que suplanta o que desejo, que suplementa o que o progresso faz existir, que extrai da minha imaginação (a não-existência refletida) o lixo narcísico mais recôndito. Sou um gladiador do ócio. As imagens de mim apoderam-se de mim e ora parto num bote viking (que, às tantas, recebe uma incumbência das alturas e se transforma numa nave interestrelar à procura de melhores razões ou, até, de um deus que nunca tenha encarnado e se manifeste em simultâneo em todas as imagens de mim e em todas as imagens de cada humano) ora me envolvo, acompanhado de outros jogadores, em projetos titânicos de redefinição ativa da bondade do mundo em luta contra equipas antagónicas com outros projetos concorrentes. São contribuições virtuais para um mundo melhor, mas quem viaja por estes mundos distancia-se daquilo que podemos chamar realidade política. Experimentam-se reflexividades parciais como se nelas quase existíssemos. Experimentei ser algumas das personagens mirabolantes que nos colocam à disposição, mas não sabia sentir com elas como se eu fosse um carapau habitando um hipnotizador encartado. Agora não me afasto do que eu sou e viajo nessa imagem de mim por um altruísmo totalmente inútil (que não quer surpreender, ou enriquecer, ou valorizar-se, ou preparar-se para uma tarefa política): apenas vencer destemidamente, apenas triunfar sobre bons e maus, apenas demonstrar que sou apto para jogar e que jogando, quase nada sendo do que sou, ainda assim sou o máximo na circunstância hiper-real do jogo (o que define os primórdios do mundo, o que domina os cataclismos, o que faz recomeçar o mundo quando erram ou falham os dispositivos electrónicos que suportam os mundos virtuais). São ocasiões únicas que a vida nunca nos oferecerá. Exulta em nós uma adrenalina luminosa. Nem o amor existe nem nenhuma necessidade atordoa a personagem em que estamos senão uma ânsia de triunfo num mundo de virtude e malignidade redefinidas à medida de uma glória ociosa. Como regressar de um mundo virtual? Onde deixar o patriotismo efémero de uma civilização nascida do nosso heroísmo? Como despir a imaginação avidamente satisfeita no mundo virtual, enfarpelá-la à medida da mediocridade real? «Vive aqui, deixa o resto» é a convidativa lógica do jogo.