Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O PÓLEN E, DEPOIS, ANTES  

Quando recuamos muito, chegamos à «unidade essencial de todos os seres vivos». Atingimos, na opacidade essencial da matéria, o mecanismo que aglutina os átomos em cristais cada vez mais complexos até ao ponto em que a mudez e o silêncio se tornam insustentáveis. Seguem-se zonas ocas onde o vento sopra, por onde a lama escorre e se infiltra em buracos que transudam sangue. Este apela ao pólen, vida sem forma, que chama o vento, monta-o como se em cavalos surdos partisse pelos oceanos e chegasse aos astros. É nos vales que o pólen se detém, se enreda nas pedras das avalanches que durante o inverno tombaram e é entre elas que atinge uma forma. As raízes têm, entre as pedras, as formas possíveis, mas as folhas e as flores procuram agradar e inventam formas pelo prazer de agradar. Do jugo do semelhante todos os seres vivos se tentam libertar. Tentam individualizar-se e surpreender, tentam escapar do que está determinado. Quando recuamos muito, perdemos a magia deste repertório de adaptações: no lugar da vida encontramos um glorioso mecanismo de conciliações e, se olhamos para cima como se procurássemos uma chave que o decifrasse, deparamos com uma intuição indizível (pois nada deixa de fora – nem nenhum interlocutor). É quando percebemos provisórias todas as soluções: as formas de vida seguiram teorias da vida que eram versões imperfeitas dessa grande intuição. «Premonição», dizemos pretensiosamente porque intuímos que nos aproximamos de algo melhor. Abrimos a compreensão ao invisível. As coisas funcionam como o pólen, melhoram e funcionam melhor, como o pólen, também, mas as explicações podem não funcionar melhor.