Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O QUE A POESIA ENSINA  

Nenhum poema contemporâneo pode começar com uma grande afirmação como Beethoven fazia. Não se trata apenas dessa pompa já não nos deslumbrar como antigamente, o pleno volume sinfónico mais os graves dos tambores rufando dentro de qualquer coisa a que podemos chamar corpo – porque perante a música os confrontos confundem o interno e a superfície onde os pelos se eriçam. Não desaparecemos como presença: é uma linguagem total que, como uma tempestade de verão, cai sobre nós, uma coreografia de brilhos rompe o cinzento castigado dos céus, o cabelo, as roupas, os sapatos diluem-se num ritmo de palavras ondulantes e pássaros perseguindo insetos abstratos com um sentido da transgressão e da impossibilidade muito além do que a expressão «consagração da primavera» consegue significar. Não só as andorinhas, vemos um granito luminoso faiscar ondulando entre nuvens de palavras, de súbito colidir num bloco de chumbo que entreva a memória. Num momento, grandes massas sonoras convergem numa caravana de camelos irrompendo num horizonte de silêncios. Percebem-se assim as metáforas insustentáveis. Nenhum poeta consegue instantaneamente introduzir-nos em todos os pressupostos do poema; prescindir da retórica da apresentação dos sons, num instante, fazer que apareçam flores moduladas por sílabas que dançam, pô-las na boca da multidão ululante de uma epopeia, no suspiro do narcísico volúvel, pseudo-sedutor, híper-apaixonado, tremeluzindo de inspirados versos dirigidos a alguém que é, também, um verso dele mesmo. Na verdade, compreendemos todos os poetas: nos sarcasmos do falso narcísico que dramatiza subtis sentimentos impossíveis de sentir ou que roçam o piroso encontramos, ainda, o verdadeiro narcísico procurando exceder-se com um propósito que nem ele conhece. Hoje esperamos, a qualquer momento, uma solução plausível para os nossos delicados enigmas. Sabemos que ela surgirá insidiosamente num noticiário a que não daremos, de início, grande atenção; depois, inexplicavelmente, algum estadista ou um croniqueiro ou um divulgador de pseudociências repete-a, outro apropria-se dela, outro ainda, traça-lhe uma genealogia que a apresenta como indispensável e óbvia. Neste momento já uma simples hipótese que alguém alvitrou sem grande convicção se transformou numa necessidade lógica. Um poeta raramente consegue isto. Nem arrisca começar um poema com o trram trram trram trraaam de alguém a bater à porta. Prefere, hoje, começar pelo fumo que resulta da fragmentação das palavras, pelo estatuto pré-semântico do amor ou doutros fenómenos relacionais que ocorrem em aquários ou noutros espaços fechados, as pequenas irisações que acompanham a saudade, a branda violência da memória de odores infantis na pele de alguém que partiu, pois, hoje, acentuaram-se os desaparecimentos: a luz da próxima coisa já pisca, oferece a sua veracidade por ser ténue e vencer a anterior, por ser fútil e substituir toda a moral anterior, por ser vulgar e mais atraente que toda a beleza desejada. O poeta está cansado da poesia magnífica e inspirada em transtornantes paixões, troca-a por uma vida que deverá superar a humana e atingir a abstração da pura força que, de se imaginar, se faz inaudita.